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Esquema bilionário no INSS expõe fragilidade de quem mais precisa

Nova fase da Operação Sem Desconto revela desvio de R$ 640 milhões e pagamento de propinas a autoridades ligadas à Previdência.

Quando a investigação de um esquema de corrupção atinge diretamente aposentados e pensionistas; justamente aqueles que já carregam a marca de uma vida inteira de trabalho, o impacto é mais do que financeiro: é emocional, social e profundamente humano. A nova fase da Operação Sem Desconto, deflagrada na quinta-feira (13) pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União, reacendeu essa ferida ao revelar um esquema bilionário que desviou ao menos R$ 640 milhões de recursos do INSS, com pagamento sistemático de propina para servidores públicos, parlamentares e dirigentes de entidades.

Segundo a PF, a Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais), uma das entidades envolvidas nas fraudes, teria sido peça central na estrutura de corrupção, usando convênios para descontar indevidamente valores de aposentados e pensionistas, e repassar parte desse dinheiro a autoridades.

Núcleos do esquema e divisão de tarefas

A PF dividiu o esquema em três núcleos: o núcleo de comando, liderado pelo presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes; o núcleo financeiro, chefiado por Cícero Marcelino de Souza Santos; e o núcleo político, composto por parlamentares e agentes públicos responsáveis por proteger a estrutura e garantir que os convênios seguissem ativos.

Foram cumpridos 63 mandados de busca e apreensão em 14 estados e no Distrito Federal. Ao menos oito pessoas foram presas, incluindo figuras importantes do INSS:
• Alessandro Stefanutto, ex-presidente do órgão;
• André Paulo Félix Fidelis, ex-diretor de Benefícios;
• Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, ex-procurador-geral;
• Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Conafer;
• Tiago Abraão Ferreira Lopes, diretor da Conafer;
• Thaísa Hoffmann Jonasson, médica e empresária;
• Vinicius Ramos da Cruz, cunhado do presidente da Conafer;
• Cícero Marcelino de Souza Santos, apontado como operador financeiro.

O ministro do STF André Mendonça também determinou nova prisão preventiva para o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, já detido desde setembro. O presidente da Conafer, Carlos Roberto, segue como alvo de mandado de prisão.

Propinas milionárias e atuação da cúpula do INSS

As investigações mostram que Alessandro Stefanutto, então presidente do INSS, recebia R$ 250 mil por mês entre junho de 2023 e setembro de 2024. Ele teria aprovado e mantido convênios da Conafer mesmo após alertas técnicos sobre irregularidades, e usava empresas de fachada para receber os pagamentos. Nas comunicações interceptadas, era chamado de “O Italiano”.

Outro nome de peso é o ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Oliveira Filho, que recebeu R$ 6,5 milhões entre 2022 e 2024. De acordo com a PF, ele aparecia nos diálogos interceptados como “Herói V”, “Amigo V” ou “Procurador”. Ele e sua esposa, Thaísa Hoffmann, se entregaram à PF em Curitiba.

O ex-diretor de Benefícios, André Fidelis, teria embolsado R$ 3,4 milhões no mesmo esquema. Identificado como “Herói A”, era considerado peça essencial para manter os pagamentos fraudulentos e a omissão de fiscalizações internas.

Políticos no centro da engrenagem

A investigação também atinge o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), que teria recebido R$ 14,7 milhões em propina, segundo a PF. Nas planilhas apreendidas, ele é o “Herói E”. A PF afirma que sua função era garantir proteção política à Conafer e facilitar o acesso da entidade a autoridades públicas.

Outro nome citado é o ex-ministro da Previdência e do Trabalho, José Carlos Oliveira, que teria recebido propina enquanto dirigia o INSS e, depois, a pasta no governo Bolsonaro. Ele foi alvo de buscas e agora usa tornozeleira eletrônica.

Também foram identificados repasses de mais de R$ 1 milhão ao ex-secretário de Inovação do Ministério da Agricultura, Pedro Alves Corrêa Netto, entre 2022 e 2024.

A fase mais recente da operação

A etapa realizada na quinta-feira (13) concentrou-se especialmente no núcleo político da organização, mirando autoridades responsáveis por assegurar a continuidade dos convênios entre INSS e Conafer. Nessa fase, além de Stefanutto, Virgílio e Fidelis, a PF também cumpriu mandados contra deputados e um ex-ministro.

A operação reforça que, ao longo dos meses, diferentes fases foram mapeando os papéis de cada grupo, do dinheiro desviado ao uso de codinomes, passando pela proteção institucional que manteve o esquema funcionando.

O que dizem os citados

A Conafer afirmou confiar nas instituições e defendeu a presunção de inocência dos investigados.
O deputado Euclydes Pettersen declarou que não mantém relação com o INSS e negou qualquer atividade ilícita envolvendo a Conafer.
A defesa de Stefanutto classificou sua prisão como ilegal, afirmando que ele sempre colaborou com as investigações.

As demais defesas seguem sendo procuradas.

Um alerta que transcende números

Quando um escândalo dessa dimensão vem à tona, não estamos falando apenas de cifras, planilhas e estruturas de poder; estamos falando de pessoas. Vidas reais, muitas delas marcadas por limitações de saúde, idade avançada e desafios diários. A cada desconto indevido, a cada propina paga, há um pedaço da dignidade desses brasileiros sendo arrancado.

Que a complexidade desse caso sirva também de reflexão: a proteção social não pode ser corrompida sem que a confiança coletiva seja profundamente ferida. E é justamente por isso que acompanhar, cobrar e manter acesa essa discussão é tão necessário. Porque, no fim das contas, é o cidadão comum; aquele que trabalhou a vida inteira, quem mais precisa ser respeitado.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação

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