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Acordo entre EUA e Irã revela concessões bilionárias, expõe limites da guerra e acende alerta em Israel

Minuta de 14 pontos obtida pela CNN prevê fim das hostilidades, flexibilização de sanções, acesso do Irã a bilhões de dólares e negociações futuras sobre o programa nuclear; documento também levanta dúvidas sobre o futuro do Estreito de Ormuz e provoca desconforto em Israel.

Depois de semanas que colocaram o Oriente Médio novamente à beira de uma escalada imprevisível, Estados Unidos e Irã deram um passo que pode redesenhar o equilíbrio de poder na região. A minuta de um acordo de 14 pontos, obtida pela CNN, não apenas estabelece as bases para encerrar a guerra entre os dois países, como também abre caminho para o relaxamento de sanções econômicas, a retomada do comércio de petróleo iraniano e a criação de um fundo de desenvolvimento de pelo menos US$ 300 bilhões para Teerã.

O documento, que ainda será oficialmente assinado na próxima sexta-feira (19), na Suíça, é tratado por especialistas como um dos movimentos diplomáticos mais relevantes dos últimos anos. Ao mesmo tempo em que promete aliviar tensões, ele também expõe fragilidades, deixa questões centrais sem resposta e provoca reações dentro e fora da região, especialmente em Israel.

O que prevê o acordo

O memorando de entendimento estabelece o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano, além do compromisso mútuo de Estados Unidos e Irã de não promoverem ações hostis nem utilizarem ameaças ou força militar um contra o outro.

O texto também determina que ambos os países respeitem suas respectivas soberanias e integridades territoriais, além de se comprometerem a negociar um acordo definitivo em até 60 dias, prazo que poderá ser prorrogado caso haja consenso entre as partes.

Entre os pontos de maior impacto está a suspensão do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos ao Irã e a retomada gradual do tráfego marítimo na região. O documento prevê que, em até 30 dias, a circulação de embarcações retorne aos níveis registrados antes do conflito.

Outro destaque é o compromisso americano de criar, juntamente com parceiros regionais, um plano de recuperação e desenvolvimento econômico para o Irã, com financiamento mínimo de US$ 300 bilhões. O mecanismo para execução desse plano ainda será detalhado durante as negociações futuras.

Sanções e petróleo no centro das negociações

A minuta também prevê um processo de flexibilização das sanções impostas ao Irã ao longo dos últimos anos.

Pelo texto, os Estados Unidos se comprometem a emitir autorizações para que o Irã volte a exportar petróleo bruto, produtos petroquímicos e derivados, incluindo a liberação de serviços bancários, de seguros e transporte relacionados ao setor energético.

Além disso, ativos e recursos financeiros iranianos congelados no exterior poderão ser gradualmente liberados, conforme o avanço das negociações para um acordo definitivo.

Caso os compromissos sejam cumpridos, Teerã poderá ter acesso integral a esses recursos e aos investimentos previstos no plano de desenvolvimento econômico.

Programa nuclear continua cercado de dúvidas

Apesar de ser considerado um dos principais motivos para o conflito, o programa nuclear iraniano não recebeu uma solução definitiva na minuta divulgada.

O documento traz apenas uma reafirmação do compromisso iraniano de jamais produzir armas nucleares. No entanto, o destino do urânio altamente enriquecido já acumulado pelo país e outros aspectos técnicos do programa foram deixados para futuras negociações.

Até que um acordo final seja alcançado, o texto determina a manutenção do status quo: o Irã continuará operando seu programa nuclear nos moldes atuais, enquanto os Estados Unidos não imporão novas sanções nem ampliarão sua presença militar na região.

A ausência de detalhes sobre o desmantelamento do programa nuclear chamou atenção porque integrantes do governo Trump vinham afirmando que esse seria um dos pilares centrais das negociações.

Estreito de Ormuz segue como principal incógnita

Embora tenha sido o epicentro das tensões recentes, o Estreito de Ormuz não aparece explicitamente na minuta.

O texto menciona apenas a retomada do fluxo marítimo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, regiões conectadas justamente pelo estreito, por onde passa uma parcela significativa do petróleo comercializado no mundo.

A ausência de uma referência direta gerou interpretações distintas. Autoridades americanas rejeitam a ideia de que o acordo conceda qualquer tipo de controle adicional ao Irã sobre a passagem marítima. Já o governo iraniano reforça que continuará regulando o trânsito de embarcações e cobrando taxas relacionadas à navegação.

A redação utilizada no documento também deixa margem para diferentes leituras sobre como será a administração prática dessa rota estratégica nos próximos meses.

Trump faz alerta e minimiza alcance do documento

Durante a cúpula do G7, realizada na França, o presidente Donald Trump afirmou que o memorando não representa um acordo definitivo.

Segundo ele, o texto é apenas uma etapa inicial das negociações e ainda não garante o alívio imediato de todas as sanções econômicas.

Trump também fez um alerta direto ao regime iraniano ao afirmar que os Estados Unidos poderão retomar ataques militares caso considerem que Teerã não esteja cumprindo os compromissos assumidos.

A declaração reforça a percepção de que, apesar do avanço diplomático, a relação entre os dois países permanece marcada pela desconfiança.

Israel vê cenário desfavorável

Um dos países mais incomodados com os termos da negociação é Israel.

Segundo fontes ouvidas pela CNN, o governo israelense solicitou acesso ao conteúdo integral do memorando, mas o pedido teria sido negado pelos Estados Unidos.

Especialistas avaliam que o desfecho das negociações pode alterar significativamente a dinâmica estratégica construída por Israel desde o início dos confrontos regionais intensificados após outubro de 2023.

Análises de inteligência americanas apontam que autoridades iranianas saíram do conflito sentindo-se fortalecidas politicamente. Mesmo após os ataques sofridos, o país ainda preservaria parte significativa de sua capacidade militar, incluindo lançadores de mísseis e estoques de drones.

Irã ganha poder de barganha

Para analistas internacionais, o principal aprendizado de Teerã após o conflito foi perceber que sua influência sobre o Estreito de Ormuz pode representar um instrumento de pressão ainda mais eficaz do que a própria busca por uma arma nuclear.

Segundo avaliações apresentadas por especialistas em relações internacionais, o Irã emerge das negociações com uma capacidade de barganha considerável, especialmente porque o mundo depende da estabilidade da rota marítima para evitar novos choques nos preços da energia.

Ao mesmo tempo, países europeus demonstram interesse direto na reabertura segura da região. O receio é que a combinação das tensões no Oriente Médio com a guerra na Ucrânia continue pressionando os custos energéticos e alimentando a inflação no continente.

Mais do que um simples cessar-fogo, o memorando entre Estados Unidos e Irã revela como as guerras modernas raramente terminam com vencedores absolutos. Enquanto diplomatas celebram a possibilidade de uma trégua histórica, permanecem abertas questões que podem definir o futuro da segurança global, do mercado de energia e da estabilidade regional. O documento pode representar o início de uma nova fase de diálogo, mas também deixa claro que a paz, muitas vezes, é apenas o primeiro capítulo de negociações muito mais complexas.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/BBC

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