Acerto com a Polícia Federal, firmado nesta quinta – feira (9), pode revelar bastidores do núcleo financeiro do esquema que atingiu aposentados em todo o país.
Por trás de números frios e termos técnicos, existe uma ferida silenciosa: milhões de aposentados que confiaram no sistema e tiveram parte de sua renda comprometida sem sequer perceber. É nesse cenário que a delação do empresário Maurício Camisotti surge como um possível divisor de águas. Firmado com a Polícia Federal, nesta quinta – feira (9), o acordo promete lançar luz sobre um dos maiores escândalos recentes envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social.

Considerado peça-chave do chamado “núcleo financeiro” do esquema, Camisotti passa agora a colaborar com as investigações que apuram fraudes em descontos indevidos aplicados a aposentados e pensionistas em todo o Brasil.
Um esquema bilionário e estruturado
As investigações revelam que o esquema não era improvisado. Pelo contrário, funcionava com organização e divisão de tarefas. Segundo a Polícia Federal, havia um núcleo operacional responsável por inserir dados falsos, um núcleo político que garantia influência e proteção, e um núcleo financeiro, onde Camisotti atuava diretamente, movimentando e ocultando recursos.
O prejuízo estimado ultrapassa R$ 6 bilhões entre 2019 e 2024, resultado de descontos feitos sem autorização nos benefícios de milhões de brasileiros.
Prisões e personagens centrais
Camisotti foi preso em setembro de 2025, no mesmo dia que Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado como um dos principais operadores do esquema. Ambos seguem detidos.
Durante as operações, a Polícia Federal apreendeu bens de alto valor, como carros de luxo, joias e obras de arte, evidenciando o padrão de vida incompatível com as atividades declaradas pelos investigados.
Outras delações em negociação
A colaboração de Camisotti pode não ser a única. Outras duas delações estão em negociação e podem aprofundar ainda mais o alcance das investigações.
Entre os possíveis delatores estão o procurador federal Virgílio Oliveira Filho, preso desde novembro de 2025, e André Fidelis, ex-diretor de benefícios do INSS até julho de 2024.
Fidelis ocupava uma posição estratégica. Era ele quem autorizava parcerias com associações e sindicatos que, em tese, ofereciam serviços aos aposentados. Na prática, esses acordos abriram caminho para descontos automáticos nos benefícios.
O papel das entidades e a explosão de arrecadação
Um dos casos que mais chamou atenção foi o crescimento da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais. A entidade registrou aumento expressivo no número de filiados e chegou a movimentar centenas de milhões de reais em descontos associativos.
O avanço acelerado levou o INSS a firmar um Termo de Ajustamento de Conduta para revisar e revalidar os descontos aplicados, numa tentativa de conter os danos.
Como funcionava a fraude
Na prática, aposentados eram vinculados a associações sem consentimento claro. Pequenos valores eram descontados mensalmente, muitas vezes passando despercebidos.
Somados, esses valores geraram um esquema altamente lucrativo, sustentado por falhas de controle e, segundo as investigações, possível conivência interna.
O que pode mudar com a delação
A expectativa agora é que a delação de Camisotti revele nomes, conexões e caminhos do dinheiro. O acordo ainda precisa ser validado pela Justiça para ter efeitos plenos, mas já é visto como um passo importante para responsabilizar todos os envolvidos.
Mais do que punir culpados, o caso levanta um alerta sobre a vulnerabilidade de milhões de brasileiros que dependem da previdência para sobreviver.
No fim das contas, essa história vai além de cifras bilionárias ou disputas judiciais. Ela fala sobre confiança quebrada, sobre idosos que tiveram parte de sua dignidade arrancada em silêncio. E talvez seja justamente essa delação que comece a devolver não apenas dinheiro, mas algo ainda mais valioso: a sensação de justiça para quem, por muito tempo, se sentiu invisível.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil













