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Lula conseguirá governar com Congresso mais à direita? Analistas apontam desafios para 2027

Com o fortalecimento da oposição nas urnas, relação entre o Palácio do Planalto e o novo Legislativo deve exigir maior articulação política; especialistas divergem sobre o tamanho das dificuldades que o presidente enfrentará.

Uma semana após a vitória nas urnas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já enfrenta um dos principais desafios do próximo período de governo: construir uma relação de equilíbrio com um Congresso Nacional que deve ter uma presença ainda mais forte de parlamentares de direita e oposição a partir de 2027.

O tema foi discutido na terça-feira (20), durante o programa O Grande Debate, da CNN Brasil, pela jornalista e ex-senadora Ana Amélia Lemos e pelo comentarista José Eduardo Cardozo. A discussão abordou a capacidade de Lula de manter a governabilidade diante de uma nova composição do Legislativo, marcada pelo crescimento das bancadas oposicionistas.

O PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores, consolidando-se como a maior bancada nas duas Casas. Já a Federação Brasil da Esperança, formada pelo PT e outros partidos, conquistou 88 cadeiras na Câmara e nove no Senado.

O cenário atual e o desafio que começa em 2027

Para Ana Amélia Lemos, o momento imediato não representa um obstáculo tão expressivo para o governo, já que o Congresso ainda em exercício é conhecido e permite maior previsibilidade nas negociações. “Quem tem a caneta na mão e o diário oficial tem muito poder”, afirmou.

Na avaliação da jornalista, a situação muda a partir de fevereiro de 2027, quando os novos parlamentares assumirem seus mandatos. Com uma oposição mais numerosa, o governo deverá enfrentar dificuldades maiores para aprovar projetos e construir maiorias.

Apesar disso, Ana Amélia acredita que pressões externas ao Parlamento poderão influenciar decisões sobre temas de interesse da sociedade. Ela também destacou os sinais de apoio de Lula à permanência de Davi Alcolumbre no comando do Senado e de Hugo Motta na presidência da Câmara, movimento que pode favorecer a interlocução entre os Poderes.

Outro ponto sensível citado pela ex-senadora é a pauta do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), considerada uma das prioridades de setores da oposição. Segundo ela, a permanência de Alcolumbre na presidência do Senado pode contribuir para manter o assunto fora da agenda de votações.

“Um tema que, para o presidente, se mantido Davi Alcolumbre, ele vai certamente, como já prometeu, guardar na gaveta esse assunto que é indigesto”, declarou.

Ana Amélia acrescentou que tanto o Executivo quanto uma parcela significativa dos parlamentares demonstram pouco interesse em levar esse debate adiante, assim como integrantes da própria Suprema Corte.

Sistema político fragmentado é obstáculo para qualquer presidente

José Eduardo Cardozo apresentou uma análise mais estrutural e afirmou que as dificuldades de governabilidade não estão relacionadas exclusivamente à orientação ideológica do presidente. Para ele, o próprio funcionamento do sistema político brasileiro impõe obstáculos à construção de maiorias no Congresso.

“O sistema brasileiro, da forma em que ele está, ele traz a ingovernabilidade ou a dificuldade de governar para qualquer presidente da República. Pouco importa se ele é de direita, de esquerda, de centro”, avaliou.

Entre os principais problemas, Cardozo apontou o modelo de emendas parlamentares, que garante aos congressistas participação direta na destinação de recursos do orçamento. Na visão do comentarista, esse mecanismo reduz o espaço para negociações programáticas entre o governo e os partidos.

“Eu reduzo a margem de diálogo, de discussão sadia para conseguir-se maioria parlamentar”, explicou.

Direita pode enfrentar divisões internas

Mesmo diante de um Congresso mais conservador, Cardozo demonstrou cautela otimista sobre a capacidade de Lula de construir acordos. Para ele, os parlamentares eleitos pela direita ou com apoio do bolsonarismo não necessariamente atuarão de maneira unificada.

O comentarista acredita que divergências internas poderão enfraquecer a atuação conjunta desse grupo e abrir espaço para negociações com o governo. Segundo ele, parte dos parlamentares que se aproximaram do bolsonarismo poderá rever posições e se afastar desse alinhamento político.

“Acho que haverá divisões internas e pesadíssimas”, afirmou.

Cardozo também avaliou que existe uma possibilidade significativa de a direita não conseguir se manter como um bloco coeso nas votações e nas articulações dentro do Congresso.

Governabilidade dependerá de articulação e capacidade de negociação

As avaliações apresentadas no debate apontam para um cenário em que Lula poderá continuar governando, mas terá de lidar com uma composição legislativa mais desafiadora. Enquanto Ana Amélia considera que as maiores dificuldades devem aparecer com a posse dos novos parlamentares, Cardozo chama atenção para problemas estruturais que afetam qualquer governo.

A partir de 2027, a capacidade de diálogo do Palácio do Planalto, as negociações com as presidências da Câmara e do Senado e as possíveis divisões entre os partidos de oposição serão fatores importantes para definir o ritmo das votações.

Mais do que o resultado das urnas, o novo cenário coloca em evidência uma questão central da política brasileira: governar exige não apenas conquistar votos, mas construir entendimentos em um Legislativo cada vez mais fragmentado e disputado.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação

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