Home / Nacional / Ex-secretário de Ciro Nogueira é alvo de megaoperação sobre fraude bilionária em combustíveis

Ex-secretário de Ciro Nogueira é alvo de megaoperação sobre fraude bilionária em combustíveis

Ação da PF mira esquema que pode ter sangrado cofres públicos e resgata conexões políticas do núcleo duro do governo Bolsonaro.

A quinta-feira (27) começou com um impacto que ressoou tanto no setor de combustíveis quanto na esfera política: uma megaoperação da Polícia Federal mirou um dos maiores esquemas de fraude tributária já investigados no país. Entre empresas, refinarias e executivos, um nome chamou especial atenção: o de Jonathas Assunção Salvador Nery de Castro, ex-secretário-executivo da Casa Civil na gestão de Ciro Nogueira. A notícia trouxe à tona, mais uma vez, o delicado entrelaçamento entre interesses privados e o poder público que tanto moldou os últimos anos da política brasileira.

A “Operação Combustível Limpo” investiga possíveis irregularidades fiscais envolvendo dezenas de empresas do setor de derivados de petróleo, com suspeitas de sonegação de impostos e emissão de notas frias: prejuízos que podem alcançar cifras bilionárias. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, incluindo a Refit Refinaria de Petróleo do Brasil S.A., onde Assunção atua como executivo.

O elo entre Brasília e o setor privado


A trajetória de Assunção adiciona uma carga simbólica e política à operação. Nomeado como “número 2” da Casa Civil em 2021, ele se tornou peça-chave na articulação interna do governo Bolsonaro, após servir como chefe de gabinete do general Walter Braga Netto. Este último cumpre pena de 26 anos de prisão em regime fechado por participação na tentativa de impedir a posse de Lula, na chamada trama golpista.

A ligação entre Assunção e o núcleo político do bolsonarismo é antiga: ele chegou a ser testemunha de defesa de Jair Bolsonaro no processo do STF sobre o plano golpista. Em audiência com o ministro Alexandre de Moraes, em maio de 2025, negou que tivesse presenciado qualquer conversa que indicasse violação da ordem constitucional.

Nomeações, denúncias e o orçamento secreto


A vida pública de Assunção foi marcada por episódios que levantaram questionamentos. Um deles foi a nomeação de sua esposa, Ana Carolina Argôlo, para um cargo no Ministério de Minas e Energia, com salário de R$ 13,6 mil, indicação feita por Ciro Nogueira. A Comissão de Ética Pública chegou a avaliar possível conflito de interesses, mas não aplicou sanções.

Outro ponto sensível foi sua atuação como gestor informal do orçamento secreto, o mecanismo de emendas que, sem transparência, movimentou bilhões de reais entre 2020 e 2022. Assunção fazia a interlocução de planilhas e solicitações parlamentares, sob coordenação da Casa Civil, alimentando suspeitas de barganhas políticas.

Disputas na Petrobras e a sombra da governança fragilizada


Em 2022, Assunção protagonizou mais uma polêmica ao ser eleito para o Conselho de Administração da Petrobras. Seu nome foi rejeitado três vezes pelo Comitê de Elegibilidade da estatal, mas acabou aprovado após manobra do conselho; decisão duramente criticada por acionistas e analistas, que apontaram riscos à governança da companhia.

Documentos podem revelar novos elos da fraude


Segundo fontes da Polícia Federal, ainda não há detalhamento do papel de Assunção no esquema tributário. No entanto, os documentos recolhidos na Refit podem apontar conexões entre as fraudes e figuras do antigo governo. A refinaria já havia sido alvo de polêmica meses antes, após ser temporariamente interditada pela ANP, episódio associado a um encontro sigiloso entre um diretor da agência e o próprio Assunção; o que a ANP negou ter qualquer irregularidade.

Um setor estratégico sob a mira


A operação reacende o alerta sobre fragilidades na fiscalização do setor de combustíveis, que movimenta cerca de R$ 500 bilhões por ano em tributos. Especialistas alertam que fraudes fiscais distorcem a concorrência, alimentam cartelizações e prejudicam diretamente o consumidor, que sente o impacto no preço final na bomba.

A PF informou que a investigação segue com apoio do Ministério Público Federal e pode resultar em indiciamentos nas próximas semanas.

Um país que revisita suas próprias feridas


A megaoperação de hoje vai além da revelação de um possível rombo bilionário. Ela nos obriga a revisitar as conexões entre poder político, interesses privados e escolhas que moldam a vida de milhões de brasileiros. Em meio a prisões, condenações e investigações que continuam a vir à tona, o país encara um espelho incômodo, mas necessário: o de uma democracia que ainda busca entender até onde foram e até onde podem ir, os limites éticos de quem deveria zelar pelo interesse público.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Painel Político

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *