Virada política em países vizinhos enfraquece o chavismo e expõe o desgaste regional do regime venezuelano.
A sensação de isolamento ao redor de Nicolás Maduro ganhou novos contornos nesta semana. Em um momento em que a Venezuela já enfrenta tensões crescentes com os Estados Unidos no Caribe, o ditador perdeu dois de seus poucos aliados remanescentes na região. A mudança de ventos não é apenas eleitoral: é simbólica, política e revela um continente que parece finalmente se afastar do chavismo, antes tão influente.
Os primeiros sinais vieram das urnas em Honduras e São Vicente e Granadinas, onde candidatos próximos a Maduro foram derrotados. A região, que por anos oscilou entre governos de esquerda e direita, agora aponta para um reposicionamento mais firme diante do regime venezuelano; especialmente após as eleições contestadas de 2024, que mantiveram Maduro no poder apesar de evidências que indicavam o contrário.
Virada nas urnas muda o tabuleiro regional
Em Honduras, a candidata governista Rixi Moncada, aliada da presidente Xiomara Castro, apareceu em terceiro lugar nas preliminares, longe da disputa real entre os candidatos de direita Salvador Nasralla e Nasry Asfura, ambos dispostos a romper laços com Caracas. Asfura, inclusive, recebeu apoio público do presidente americano Donald Trump.
No Caribe, o impacto foi ainda mais simbólico: Ralph Gonsalves, que governou São Vicente e Granadinas por quase 25 anos e era um dos aliados mais fiéis de Maduro, perdeu para Godwin Friday, de centro-direita. O novo governo assumirá com amplo respaldo parlamentar.
Essas derrotas, somadas a mudanças recentes em Equador, El Salvador, Bolívia e ao realinhamento político em Argentina, consolidam um movimento de afastamento do chavismo, que há muito deixou de ser uma força dominante na América Latina.
Relações instáveis com antigos parceiros
Mesmo governos de esquerda têm mantido distância de Caracas. Brasil, Chile, México e Colômbia, embora ideologicamente próximos em alguns pontos, passaram a adotar uma postura mais cautelosa diante das crises políticas venezuelanas.
Com a Colômbia, a relação segue ambígua. O presidente Gustavo Petro restabeleceu laços ao assumir o governo, mas após as eleições contestadas e críticas internacionais, também recuou. À CNN, disse que Maduro não tem relação com o tráfico; como afirma Washington, mas admitiu “falta de democracia e diálogo”.
A Argentina rompeu o ciclo de aproximação que viveu no kirchnerismo. Sob Mauricio Macri, a relação esfriou; com Javier Milei, virou gelo puro. Milei, crítico ferrenho do socialismo, tornou-se uma das vozes mais duras contra o regime de Maduro.
Aliados históricos, mas pouco úteis
Com o cerco aumentando, Caracas olha para seus parceiros tradicionais. Mas o apoio parece mais discursivo do que prático.
Cuba, fiel às alianças políticas do chavismo, afirma apoiar “totalmente” Maduro. Porém, mergulhada em uma das piores crises econômicas de sua história, a ilha tem pouco a oferecer além de declarações diplomáticas e evita compromissos militares.
A Nicarágua, comandada por Daniel Ortega, também se mantém discreta. Ortega criticou a presença militar americana no Caribe, mas não ofereceu qualquer suporte concreto à Venezuela.
Escalada no Caribe aumenta tensão
A concentração de mais de uma dúzia de navios de guerra e 15 mil tropas dos EUA na região, no âmbito da “Operação Lança Sul”, elevou o alerta no continente. Trump se reuniu na Casa Branca para definir os próximos passos em relação à Venezuela, segundo fontes da CNN.
Maduro, por sua vez, respondeu no tom característico: desafiador e resistente. Relembrou o histórico de sanções e crises e disse que o povo venezuelano não se intimida. Fontes ouvidas pela CNN afirmam que o ditador segue apostando na estratégia que o manteve no poder até agora: negociar apenas quando pressionado ao limite.
No fim, o isolamento crescente de Maduro é mais do que uma fotografia política, é o retrato de uma Venezuela que permanece parada no tempo enquanto o mundo ao redor se move. A América Latina, com suas idas e vindas, parece finalmente reorganizar seus caminhos, enquanto o regime chavista insiste em sobreviver em meio às próprias ruínas. É um capítulo que ainda está longe de ter um desfecho claro, mas que já revela um continente tentando se redesenhar, mesmo diante de velhas sombras.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













