Apesar de avanços diplomáticos envolvendo Estados Unidos, Rússia e Ucrânia, questões territoriais e o controle da maior usina nuclear da Europa seguem como nós difíceis de desatar.
Depois de quase três anos de guerra, o mundo acompanha cada gesto, cada telefonema e cada palavra na esperança de que a Ucrânia volte a respirar em paz. Nos últimos dias, esse fio de esperança voltou a se esticar com conversas diretas entre líderes globais. Ainda assim, por trás dos discursos otimistas, permanecem entraves profundos que impedem um acordo definitivo e mantêm o conflito em estado de alerta permanente.
Estados Unidos, Rússia e Ucrânia admitem avanços nas negociações, mas todos reconhecem que pontos centrais seguem sem solução. O presidente dos EUA, Donald Trump, conversou por telefone com o presidente russo Vladimir Putin no domingo (28) e, horas depois, se reuniu com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, na Flórida. Mesmo assim, o próprio Trump foi direto ao admitir que não há prazo para o fim da guerra.
Conversas avançam, mas sem prazo para a paz
Apesar de ter prometido durante a campanha eleitoral de 2024 que encerraria o conflito em 24 horas caso fosse eleito, Trump agora adota um tom mais cauteloso. Após o encontro com Zelensky, o presidente americano afirmou que ainda existem questões extremamente delicadas sobre a mesa.
Segundo ele, há uma ou duas questões muito espinhosas, difíceis de resolver, embora tenha destacado que as conversas caminham bem. A fala sintetiza o momento atual: avanço diplomático, mas sem garantias concretas de desfecho.
Usina nuclear de Zaporizhzhia no centro do impasse
Um dos pontos mais sensíveis da negociação envolve a usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, atualmente sob controle da Rússia. O futuro da instalação se tornou símbolo do risco e da complexidade do conflito.
Zelensky defende que a usina seja administrada de forma conjunta entre Estados Unidos e Ucrânia, com metade da produção de energia destinada ao território ucraniano e o restante sob gestão americana. Trump, por sua vez, elogiou a postura de Putin sobre o local, afirmando que o presidente russo estaria trabalhando com a Ucrânia para reabrir a usina.
Para o presidente americano, o simples fato de o local não estar sendo bombardeado já representa um avanço significativo, embora o tema continue longe de um consenso.
Territórios ocupados seguem como maior obstáculo
Se a usina nuclear é um ponto delicado, a questão territorial é, sem dúvida, o maior entrave para um acordo de paz. A Rússia reivindica como parte de seu território as regiões de Donbas, Zaporizhzhia e Kherson, ainda que a maior parte da comunidade internacional reconheça essas áreas como pertencentes à Ucrânia.
Trump reconheceu que a disputa por terras é o principal nó da negociação e chegou a sugerir que a Ucrânia avalie concessões agora para evitar perdas ainda maiores no futuro. Nesta segunda-feira (29), o Kremlin reforçou essa pressão ao afirmar que Kiev deve retirar suas tropas da parte de Donbas que ainda controla se quiser alcançar a paz.
O governo russo também alertou que, sem acordo, a Ucrânia corre o risco de perder ainda mais território, endurecendo o tom das negociações.
Zelensky admite flexibilidade, mas impõe condições
Do lado ucraniano, Zelensky tem demonstrado alguma abertura, mas com limites claros. O presidente afirmou que qualquer acordo que envolva concessão territorial precisará ser submetido a um referendo nacional, conforme determina a Constituição da Ucrânia.
Para isso, segundo ele, seria necessário um cessar-fogo mínimo de 60 dias, tempo considerado essencial para organizar a consulta popular em meio a um país ainda em guerra. O problema é que Moscou rejeita a ideia de uma trégua temporária.
De acordo com Yuri Ushakov, assessor do Kremlin, Trump e Putin compartilham a visão de que uma pausa temporária apenas prolongaria o conflito, sem resolver suas causas centrais.
Rússia diz que acordo está mais próximo, mas mantém exigências
Também nesta segunda-feira (29), o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a Rússia concorda com a avaliação de Trump de que um acordo está mais próximo do que nunca. Ele confirmou, inclusive, que uma nova ligação entre Putin e o presidente americano pode acontecer em breve.
Apesar do discurso mais otimista, Moscou mantém exigências duras, especialmente a retirada das tropas ucranianas de Donbas, condição considerada inaceitável por Kiev sem garantias concretas de segurança.
Mapa da ocupação revela dimensão do conflito
Segundo estimativas russas, atualmente as forças de Vladimir Putin controlam cerca de um quinto do território ucraniano. Entre as áreas ocupadas estão a Crimeia, anexada em 2014, aproximadamente 90% de Donbas, 75% das regiões de Zaporizhzhia e Kherson e pequenas porções de Kharkiv, Sumy, Mykolaiv e Dnipropetrovsk.
Esses números ajudam a dimensionar por que cada palavra dita nas negociações pesa tanto e por que qualquer acordo envolve decisões históricas e dolorosas.
No fim, a guerra da Ucrânia segue como um lembrete cruel de que a paz não se constrói apenas com encontros e declarações. Ela exige concessões difíceis, confiança mútua e escolhas que marcam gerações. Enquanto isso não acontece, o mundo observa, torce e espera que, entre tantos impasses, surja finalmente o caminho capaz de silenciar as armas e devolver dignidade a um povo exausto pela guerra.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













