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Os primeiros sinais do Irã sob novo líder: mais mísseis e nenhum gesto de diplomacia

Após assumir o comando da República Islâmica, Mojtaba Khamenei enfrenta um país em guerra e dá sinais de endurecimento militar, com ameaças sobre o petróleo global e pouca abertura para negociações com os Estados Unidos.

A sucessão no poder no Irã ocorreu em meio a bombas, luto e tensão internacional. Com a morte do líder supremo Ali Khamenei nos ataques que abriram a atual guerra no Oriente Médio, o país escolheu seu sucessor em um dos momentos mais delicados de sua história recente. As primeiras declarações e movimentos do novo líder, Mojtaba Khamenei, porém, indicam que o caminho adotado por Teerã tende a ser ainda mais duro: marcado por promessas de intensificação militar e quase nenhum espaço para a diplomacia.

Nos bastidores do regime e nas manifestações públicas da cúpula militar iraniana, o tom é de escalada. Autoridades ligadas à poderosa Guarda Revolucionária já sinalizam que os próximos ataques poderão ter maior alcance e poder destrutivo do que os disparados nos últimos dias contra alvos ligados a Israel e aos Estados Unidos.

A promessa de mísseis mais potentes

Uma das declarações que mais chamou atenção veio do brigadeiro-general Majid Mousavi, comandante das Forças Aeroespaciais da Guarda Revolucionária. Em mensagem publicada nas redes sociais, ele afirmou que, daqui para frente, o Irã pretende utilizar mísseis ainda mais pesados em seus ataques.

Segundo o militar, os próximos projéteis poderão carregar ogivas superiores a uma tonelada, sinalizando uma nova fase da ofensiva iraniana na região.

Até agora, os ataques com drones e mísseis disparados por Teerã têm se concentrado principalmente sobre Israel e também sobre regiões do Golfo Pérsico, onde estão instaladas bases militares e interesses estratégicos dos Estados Unidos. Países como Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Kuwait também aparecem no raio de tensão da guerra.

Poucas horas após a escolha do novo líder supremo, o Irã já lançou uma nova rodada de mísseis contra Israel, em um gesto interpretado por analistas como uma demonstração de continuidade da estratégia militar adotada pelo regime.

A ameaça ao Estreito de Ormuz

Outro ponto que preocupa governos e mercados internacionais é a ameaça iraniana ao Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta.

O major-general Ali Mohammad Naeini, porta-voz da Guarda Revolucionária, afirmou que nenhum litro de petróleo deve atravessar o estreito enquanto continuarem os ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o território iraniano.

A ameaça tem enorme peso geopolítico. Cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo passam por essa rota marítima que conecta o Golfo Pérsico aos mercados internacionais.

A simples possibilidade de bloqueio da região já provocou fortes reações nos mercados, elevando os preços do petróleo e ampliando a preocupação global com o impacto econômico da guerra.

Quem é o novo líder do Irã

Mojtaba Khamenei assumiu o comando da República Islâmica após ser escolhido pela Assembleia de Peritos, conselho responsável por definir o líder supremo do país.

Filho de Ali Khamenei, ele chega ao posto máximo do regime em meio a um cenário dramático. Nos ataques que abriram a atual guerra, Mojtaba perdeu não apenas o pai, mas também sua mãe e sua esposa.

Sua formação religiosa ocorreu na cidade de Qom, principal centro teológico xiita do Irã, o mesmo onde se formaram seu pai e o líder da Revolução Islâmica de 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini.

Antes de seguir a carreira religiosa, Mojtaba participou ainda jovem da guerra entre Irã e Iraque, nos anos 1980. Foi nesse período que construiu relações próximas com comandantes que mais tarde ocupariam posições estratégicas na Guarda Revolucionária, hoje uma das instituições mais poderosas do país.

Apesar da influência política, Mojtaba ainda não possui o título de aiatolá, sendo considerado um clérigo de nível intermediário.

Diplomacia fora do radar

Se havia alguma expectativa de que a mudança no comando do país pudesse abrir espaço para negociações, os sinais vindos de Teerã indicam o contrário.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que ainda é cedo para declarações do novo líder, mas indicou que retomar negociações com os Estados Unidos não parece estar no horizonte.

Antes mesmo disso, o ex-chanceler iraniano Kamal Kharazi já havia adotado um discurso ainda mais duro ao classificar os ataques americanos e israelenses como uma “ameaça existencial” à República Islâmica.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump criticou a escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder do Irã, afirmando que a decisão pode significar “mais do mesmo problema” nas relações entre os dois países.

A sucessão no poder em Teerã, portanto, não trouxe sinais de distensão. Pelo contrário. Em um cenário já marcado por bombardeios, sanções e ameaças ao fluxo de petróleo mundial, os primeiros movimentos do novo líder sugerem que o Oriente Médio pode estar entrando em uma fase ainda mais imprevisível do conflito.

E em guerras assim, cada discurso, cada míssil lançado e cada decisão política deixa de ser apenas um gesto interno de um país. Passa a ser um sinal que ecoa no mundo inteiro, aumentando a sensação de que a paz, neste momento, parece cada vez mais distante.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Correio do Estado

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