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Brasil chama novo tarifaço dos EUA de “marco lastimável” e anuncia reação com Lei da Reciprocidade

Governo Lula critica decisão de Washington, promete proteger empresas brasileiras e responsabiliza a família Bolsonaro pelo agravamento da crise comercial entre os dois países.

A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou em um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Após a confirmação de novas tarifas sobre produtos brasileiros, o governo federal reagiu com um duro posicionamento, classificando a medida como um episódio que marcará negativamente a história diplomática entre as duas nações. Enquanto o embate político ganha força, empresários acompanham com preocupação os possíveis reflexos sobre exportações, empregos e investimentos.

Em nota divulgada nesta quinta-feira (16), o Palácio do Planalto afirmou que o dia 15 de julho ficará registrado como um “marco lastimável” nas relações bilaterais, depois que o governo do presidente Donald Trump confirmou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A medida passa a valer a partir de 22 de julho.

Governo promete reação

No comunicado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva repudiou a decisão norte-americana e afirmou que não há justificativa para a adoção de medidas unilaterais contra o Brasil.

Segundo o Planalto, o país sempre manteve disposição para negociar e nunca abandonou a mesa de diálogo com os Estados Unidos durante as tratativas sobre a questão comercial.

A nota também reforça que os Estados Unidos acumulam superávit na relação comercial com o Brasil. De acordo com o governo brasileiro, o saldo positivo norte-americano em bens e serviços alcançou US$ 424,5 bilhões nos últimos 15 anos. Além disso, o comunicado destaca que grande parte dos produtos importados dos Estados Unidos ingressa no mercado brasileiro sem cobrança de tarifas.

Plano prevê três frentes de atuação

Como resposta ao tarifaço, o governo anunciou que atuará em três eixos principais.

O primeiro será a busca por novos mercados para ampliar o destino das exportações brasileiras. O segundo prevê medidas de apoio às empresas que poderão ser afetadas pelas novas tarifas. Já o terceiro envolve o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica, instrumento aprovado pelo Congresso Nacional que permite ao Brasil adotar medidas proporcionais diante de restrições comerciais impostas por outros países.

O Planalto também informou que retomará o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Pix e plataformas digitais entram na defesa

Na nota oficial, o governo aproveitou para contestar críticas feitas pelos Estados Unidos relacionadas ao sistema de pagamentos brasileiro e à regulamentação das plataformas digitais.

Segundo o comunicado, as alegações são consideradas infundadas.

“O Pix é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital”, afirmou o governo.

O texto também classificou como “absurdas” as acusações envolvendo questões ambientais e o desmatamento.

Planalto volta a criticar família Bolsonaro

Além da resposta econômica, o governo elevou o tom político ao responsabilizar a família Bolsonaro pelo contexto que levou à abertura da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos.

Segundo o comunicado, integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro teriam colaborado para a construção do cenário que culminou na adoção das tarifas.

O texto afirma que “falsos patriotas” defenderam publicamente medidas contra o próprio país por interesses eleitorais e reforça que a defesa da soberania nacional está acima de disputas partidárias.

Entenda o novo tarifaço

A nova tarifa de 25% será aplicada sobre mercadorias importadas ou retiradas de armazéns para consumo nos Estados Unidos a partir de 22 de julho. O percentual será somado às tarifas já existentes, elevando o custo de entrada de diversos produtos brasileiros no mercado americano.

O governo norte-americano, no entanto, estabeleceu uma regra de transição. Produtos embarcados antes da entrada em vigor da medida poderão ficar isentos da sobretaxa, desde que cheguem aos Estados Unidos até 29 de julho.

Também foi divulgada uma lista de exceções, preservando produtos considerados estratégicos para a economia americana, entre eles aeronaves civis e componentes aeronáuticos, café solúvel sem sabor, mel orgânico, ferro-gusa, hidróxido de alumínio, determinados pescados, couros, obras de arte, antiguidades, roupas usadas, resíduos com metais preciosos e diversos medicamentos.

Por outro lado, pedidos de isenção apresentados por setores como máquinas agrícolas, calçados, equipamentos elétricos, papel, aço, açúcar orgânico e diversos produtos manufaturados foram rejeitados pelas autoridades comerciais dos Estados Unidos.

O novo capítulo da disputa comercial amplia a tensão entre Brasília e Washington e coloca em evidência um desafio que vai além da diplomacia. Enquanto governos trocam acusações e anunciam medidas de reação, quem acompanha com maior apreensão é o setor produtivo, que espera por soluções capazes de preservar empregos, garantir competitividade e reduzir os impactos de uma crise que pode ultrapassar as fronteiras da política e atingir diretamente a economia brasileira.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Roberto Stuckert Filho

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