Deputado petista nega participação em suposta armação, recorre ao STF e é acusado de tentar atingir o atual vice de Flávio; candidato do PL à Presidência reafirma apoio a Gaspar e descarta troca na chapa.
Uma denúncia de graves proporções colocou novamente a disputa eleitoral no centro de uma batalha política e judicial. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) foi acusado pelo comerciante Luiz Antônio Lopes de participar de uma suposta armação para forjar uma denúncia de estupro contra Alfredo Gaspar (PL-AL), escolhido como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL). Lindbergh nega todas as acusações e acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar anular a investigação.
A controvérsia ganhou ainda mais força nesta terça-feira (11), quando Flávio Bolsonaro saiu publicamente em defesa de seu companheiro de chapa, afirmou que não pretende substituí-lo e classificou as acusações como uma “farsa”. O episódio envolve uma investigação sobre uma suposta violência sexual contra Gaspar, que teria sido apontado como pai de uma criança cuja mãe seria menor de idade à época.
Acusação surgiu durante a CPMI do INSS
A suspeita contra Alfredo Gaspar foi levantada em 28 de março, durante a CPMI do INSS, por Lindbergh e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS). Naquele momento, Gaspar era relator da comissão e passou a afirmar que estava sendo alvo de uma acusação caluniosa.
O caso ganhou um novo capítulo em 23 de abril, quando Luiz Antônio Lopes prestou depoimento à Polícia Legislativa Federal. Segundo o comerciante, ele teria participado de uma suposta armação “mediante promessa de pagamento” para acusar Gaspar de estupro.
De acordo com o depoimento, ao qual a CNN Brasil teve acesso, Luiz Antônio afirmou ter observado uma jovem nas proximidades do local onde trabalhava, acompanhada por uma jornalista e por um assessor que teria sido identificado como Lucas.
A reportagem informou que não há atualmente ninguém com esse nome no gabinete de Lindbergh.
Ainda conforme o relato apresentado à Polícia Legislativa, a jovem teria sido preparada para conceder uma entrevista utilizando uma identidade falsa, com o objetivo de acusar um político de estupro de vulnerável e afirmar que ele seria o pai de seu filho.
O comerciante também declarou que a jovem receberia valores entre R$ 2 mil e R$ 4 mil para sustentar essa versão e afirmou que ela teria cobrado Lindbergh durante uma reunião virtual.
As afirmações fazem parte do depoimento e ainda precisam ser analisadas pelas autoridades responsáveis pela investigação.
Lindbergh nega e recorre ao STF
Lindbergh Farias nega veementemente qualquer participação na suposta armação. Na segunda-feira (10), o deputado acionou o STF pedindo a anulação da investigação.
Em nota, a defesa classificou as declarações de Luiz Antônio Lopes como inverídicas e afirmou que o comerciante seria um desafeto político do parlamentar. Os advogados também mencionaram outros episódios que, segundo eles, teriam sido utilizados anteriormente para tentar vincular Lindbergh a situações sem fundamento.
Nas redes sociais, o deputado chamou Luiz Antônio de “perseguidor contumaz” e afirmou que os responsáveis pela suposta armação terão de responder à Justiça.
A defesa também questiona a própria condução da investigação. Segundo os advogados, a produção deliberada e unilateral de elementos contra um parlamentar federal, por órgão que não teria atribuição para isso e sem controle adequado, violaria garantias como o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
Filiação ao PL chama atenção
Outro ponto citado na apuração é a filiação de Luiz Antônio Lopes ao Partido Liberal. Segundo informações obtidas pela CNN Brasil, ele se filiou ao PL em 30 de abril, sete dias depois de prestar depoimento à Polícia Legislativa.
A filiação passou a integrar o contexto político do caso, embora o fato, isoladamente, não comprove qualquer relação do comerciante com uma eventual armação.
Até o momento da publicação, a equipe de Alfredo Gaspar não havia se manifestado sobre as acusações envolvendo Lindbergh. A reportagem também informou que tentava contato com Luiz Antônio Lopes.
Defesa de Gaspar aposta no exame de DNA
A acusação contra Alfredo Gaspar também envolve uma criança que teria sido apontada como filha do deputado.
A equipe jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro afirma que o material genético de Gaspar foi coletado em uma ação cautelar de produção antecipada de provas na Justiça de Alagoas. O exame foi realizado em 24 de abril e, segundo a defesa, o material está disponível para compartilhamento com a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Para os advogados, a comparação genética poderá esclarecer definitivamente se Gaspar é ou não o pai da criança e afastar a principal suspeita relacionada ao caso.
Flávio chama denúncia de “farsa”
Diante da repercussão das acusações, Flávio Bolsonaro afirmou nesta terça-feira que não pretende trocar Alfredo Gaspar da chapa e classificou o episódio como uma “farsa”.
A declaração ocorreu antes de um encontro com candidatos do PL ao Senado, em Brasília. Ao defender o vice, Flávio afirmou que a acusação teria surgido justamente no momento em que Gaspar atuava em defesa de aposentados durante a CPMI do INSS.
“Essa farsa que foi montada contra o Alfredo foi exatamente no momento em que ele estava defendendo os aposentados, roubados pelo governo do PT, inclusive pedindo a prisão. Foi feito isso contra ele, a pessoa do bem, uma pessoa preparada, da área da segurança pública”, declarou.
Durante a fala de Flávio, os candidatos que estavam próximos começaram a gritar o nome de Alfredo Gaspar, em uma demonstração pública de apoio ao deputado alagoano.
Com a declaração, o candidato do PL deixou claro que, pelo menos neste momento, a controvérsia não alterou a composição de sua chapa presidencial.
PL mira base forte no Senado
Durante a mesma entrevista, Flávio Bolsonaro também afirmou que o PL já definiu apoio a 47 candidatos ao Senado em todo o país. Segundo ele, a estratégia dará “uma capilaridade gigantesca” à candidatura presidencial.
O candidato afirmou que haverá uma orientação geral para as campanhas, mas que cada Estado terá liberdade para adaptar o discurso à realidade local.
“Cada Estado tem a sua realidade, mas tem uma linha geral”, declarou.
Flávio disse ainda que os candidatos apoiados pelo PL terão acesso direto à Presidência para apresentar demandas de seus Estados caso a chapa seja eleita.
Segurança e economia entram no discurso
Ao falar sobre a estratégia para o Senado, Flávio afirmou que pretende contar com uma base ampla no Congresso para aprovar mudanças constitucionais e alterações na legislação penal.
Entre as propostas citadas estão a redução da maioridade penal, o endurecimento das penas para crimes violentos e a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC), do Comando Vermelho e de milícias como organizações terroristas.
O candidato também voltou a criticar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela situação fiscal. Segundo Flávio, o próximo governo receberá um cenário de deterioração das contas públicas e precisará rever despesas, inclusive nas áreas de saúde e educação.
Ele afirmou que pretende trabalhar com foco na “responsabilidade fiscal”.
Caso ganha peso na disputa eleitoral
O episódio agora reúne, em um mesmo cenário, uma investigação com acusações graves, uma disputa política entre adversários e uma candidatura presidencial que decidiu manter publicamente seu vice. Enquanto Lindbergh tenta no STF reverter a investigação e nega qualquer envolvimento em uma suposta armação, Alfredo Gaspar recebe o respaldo de Flávio Bolsonaro e permanece como integrante da chapa.
As versões apresentadas pelos envolvidos são opostas, e as acusações ainda dependem da análise das autoridades e das provas que poderão confirmar ou afastar cada uma delas. Em uma eleição que promete ser marcada por fortes confrontos, o caso mostra como uma denúncia pode rapidamente ultrapassar os limites de uma disputa política e alcançar a Justiça, a campanha presidencial e a opinião pública. Agora, mais do que os discursos de lado a lado, serão os fatos e as provas que terão a responsabilidade de esclarecer o que realmente aconteceu.
Texto: Daniela Castelo Branco
Reprodução: CNN Brasil













