Rejeitado pelo Senado em uma votação inédita desde 1894, o advogado-geral da União passou a reconsiderar sua permanência no comando da AGU. Nos bastidores, aliados falam em traições dentro da própria base governista e apontam Davi Alcolumbre como principal articulador da derrota.
A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não representou apenas uma derrota institucional para o governo Lula, mas também abriu uma profunda crise política e pessoal dentro do Palácio do Planalto. Um dia após ser barrado pelo Senado por 42 votos contrários e 34 favoráveis, o advogado-geral da União passou a reavaliar sua permanência no cargo e chegou a considerar um pedido de demissão.
Nos bastidores de Brasília, o sentimento predominante entre aliados de Messias é de frustração, desgaste e, principalmente, de traição. A votação secreta expôs fragilidades na articulação do governo e levantou suspeitas de que parte da própria base governista trabalhou silenciosamente contra sua indicação.
O episódio, considerado histórico, foi a primeira rejeição de um nome indicado ao Supremo pelo Senado desde 1894.
Desabafo e reunião com Lula
Após o resultado no plenário, Jorge Messias se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio da Alvorada. Segundo interlocutores, ele desabafou sobre a falta de ambiente político para seguir à frente da Advocacia-Geral da União e não descartou deixar o governo.
Em declaração à imprensa, o chefe da AGU demonstrou abatimento, mas também adotou um tom de enfrentamento ao falar sobre o processo que viveu nos últimos meses.
“Lutei o bom combate, como todo cristão. Sei que a minha história não acaba aqui. Eu tenho 46 anos, tenho história, tenho currículo, tenho uma vida limpa. Passei por cinco meses um processo de desconstrução da minha imagem. Toda a sorte de mentiras para me desconstruir ocorreu. Nós sabemos quem promoveu tudo isso”, afirmou.
Sem citar nomes diretamente, a fala foi interpretada como um recado claro aos responsáveis pela articulação que culminou em sua derrota.
Alcolumbre no centro das suspeitas
Nos bastidores, a principal responsabilização recai sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Desde a indicação feita por Lula, em novembro do ano passado, a relação entre Messias e Alcolumbre já era marcada por tensão. O senador defendia o nome de Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga no Supremo e demonstrou incômodo por não ter sido comunicado previamente sobre a escolha do AGU.
Embora essa comunicação não seja obrigatória, o gesto é visto em Brasília como uma importante sinalização de respeito político entre os Poderes.
A falta desse aviso gerou desgaste e, segundo aliados de Messias, alimentou uma resistência silenciosa que se fortaleceu ao longo dos meses.
Agora, a avaliação é de que Alcolumbre foi o principal articulador da derrota.
Base governista também entra na mira
Além da oposição, aliados de Jorge Messias passaram a contabilizar possíveis traições dentro da própria base de apoio do governo.
As desconfianças recaem especialmente sobre o MDB e parlamentares mais próximos de Alcolumbre. Até mesmo a postura do líder do governo no Senado, Jacques Wagner (PT-BA), passou a ser alvo de questionamentos.
Repercutiu negativamente entre governistas a imagem de Jacques Wagner abraçando Alcolumbre logo após o anúncio do resultado da votação.
Momentos antes, Wagner havia perguntado ao presidente do Senado qual seria o placar final. Segundo relatos, Alcolumbre respondeu que a derrota viria por uma margem de oito votos: previsão que acabou praticamente confirmada.
A cena gerou desconforto e ampliou a sensação de isolamento de Messias dentro do próprio campo político.
Do favoritismo à derrota histórica
Durante toda a preparação para a sabatina, o governo mantinha discurso de confiança.
Os articuladores políticos afirmavam que Jorge Messias tinha votos suficientes para aprovação e, mesmo nos cenários mais conservadores, trabalhavam com ao menos 45 votos favoráveis.
A percepção começou a mudar apenas no fim da sabatina na Comissão de Constituição e Justiça, quando a conta passou a indicar uma aprovação apertada, no limite dos 41 votos necessários.
O resultado final, no entanto, foi ainda mais duro: apenas 34 votos favoráveis.
Mais do que uma rejeição, o placar expôs uma derrota política profunda e revelou o enfraquecimento da articulação do governo no Senado.
Na política, algumas derrotas não terminam quando a votação acaba. Elas continuam nos corredores, nos silêncios e nos gestos que revelam mais do que discursos. Para Jorge Messias, a disputa pelo Supremo terminou no plenário, mas o verdadeiro peso da derrota talvez esteja justamente agora: no difícil exercício de decidir se existe espaço para permanecer onde a confiança parece ter se rompido.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Agência Senado













