Grupo de 31 parlamentares democratas enviou carta a Marco Rubio e questionou ações do governo Trump que, segundo eles, podem favorecer Flávio Bolsonaro.
A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras, a disputa presidencial ganhou um novo componente internacional. Um grupo de 31 parlamentares democratas do Congresso dos Estados Unidos enviou uma carta ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, acusando a administração de Donald Trump de adotar medidas que poderiam interferir no processo eleitoral brasileiro e favorecer a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL).
O documento foi assinado por 30 integrantes da Câmara dos Representantes e pelo senador Bernie Sanders. Os parlamentares afirmam que as iniciativas adotadas por Washington fazem parte de uma suposta “campanha contínua e multifacetada de interferência e desestabilização no Brasil”. A acusação, porém, é uma interpretação dos congressistas democratas e não uma conclusão oficial do governo norte-americano.
Parlamentares questionam ações de Trump
Na carta, os congressistas citam diferentes medidas tomadas pela administração Trump nos últimos meses. Entre elas estão as tarifas impostas a produtos brasileiros e as novas medidas comerciais anunciadas em julho, além de iniciativas relacionadas ao processo eleitoral e ao sistema de votação do país.
Os parlamentares também mencionam a decisão do governo brasileiro de não conceder autorização para a entrada de dois funcionários norte-americanos que, segundo eles, pretendiam atuar em discussões relacionadas à integridade do sistema eleitoral brasileiro. O episódio ocorreu em meio à crescente tensão diplomática entre Brasília e Washington.
Tarifaço também aparece entre os argumentos
Outro ponto destacado na carta são as tarifas impostas por Trump ao Brasil. Na ocasião, o presidente norte-americano associou parte das medidas ao processo judicial envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado após a derrota para Lula nas eleições de 2022.
Os congressistas também citam informações divulgadas sobre negociações diplomáticas realizadas durante o período de tensão comercial. Segundo reportagem do Estadão/Broadcast mencionada no documento, o governo Trump teria pressionado o governo brasileiro em relação à situação de opositores políticos e às condições para participação nas eleições.
Para os parlamentares democratas, a combinação dessas medidas representa uma atuação que ultrapassaria as relações comerciais e diplomáticas tradicionais entre os dois países.
Carta menciona Flávio Bolsonaro
Os congressistas afirmam que as iniciativas adotadas pela administração Trump poderiam beneficiar Flávio Bolsonaro, que disputa a Presidência da República pelo PL.
A eleição brasileira está marcada para 4 de outubro, e as pesquisas mais recentes mostram uma disputa apertada entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente nos cenários de segundo turno. Levantamentos recentes registraram diferenças dentro das margens de erro, sem apontar uma vantagem estatisticamente conclusiva de um dos dois candidatos.
A proximidade política entre Trump e integrantes da família Bolsonaro também aparece no contexto das acusações. O governo norte-americano, no entanto, rejeitou anteriormente as alegações de que estaria promovendo uma estratégia para interferir na eleição brasileira. O Departamento de Estado afirmou que qualquer insinuação de uma operação para enfraquecer uma eleição democrática seria falsa.
Tensão entre Brasília e Washington
A relação entre os dois governos se deteriorou ao longo dos últimos meses, com a combinação de medidas comerciais, declarações políticas e divergências sobre o processo envolvendo Jair Bolsonaro.
O presidente Lula também fez críticas indiretas à interferência estrangeira durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta semana. Sem citar diretamente Trump, afirmou que o Brasil não permitiria que inimigos internos ou externos da democracia atuassem contra a vontade dos eleitores.
Na carta enviada a Rubio, os parlamentares democratas ampliaram o alerta para além do Brasil. Eles afirmam que enxergam um padrão semelhante em outras disputas eleitorais da América Latina e citam episódios relacionados à Argentina, Honduras e Colômbia.
Pedido de resposta antes da eleição
Os congressistas encerraram o documento questionando se o governo Trump está disposto a respeitar o processo eleitoral brasileiro e a reconhecer a legitimidade dos resultados produzidos pelas urnas.
O grupo pediu que Marco Rubio responda aos questionamentos até 1º de outubro, apenas três dias antes do primeiro turno da eleição brasileira. Até o momento da publicação, o Departamento de Estado não havia apresentado resposta à carta.
Com a votação cada vez mais próxima, o episódio acrescenta uma nova camada à já acirrada disputa presidencial brasileira. O debate agora ultrapassa as fronteiras do país e coloca no centro das atenções a soberania eleitoral, as relações entre Brasil e Estados Unidos e os limites da atuação de governos estrangeiros em um processo que, ao fim, será decidido pelos eleitores brasileiros.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













