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Deputados dos EUA cobram governo Trump sobre suposta interferência nas eleições brasileiras

Carta assinada por 12 democratas questiona medidas adotadas por Washington e pede explicações a Marco Rubio; PF arquivou apuração sobre possível atuação estrangeira no pleito.

A reta final da eleição brasileira ganhou mais um capítulo no cenário internacional. Enquanto o Brasil se prepara para o segundo turno da disputa presidencial, um grupo de deputados democratas dos Estados Unidos decidiu cobrar explicações do governo de Donald Trump sobre uma possível atuação de Washington na política brasileira.

Em carta enviada ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, 12 parlamentares da Câmara dos Representantes questionaram o que classificam como uma escalada nas relações diplomáticas entre os dois países e levantaram dúvidas sobre medidas adotadas pelo governo Trump em meio ao período eleitoral brasileiro. As acusações, no entanto, não significam que uma interferência tenha sido comprovada. A Polícia Federal arquivou, nesta semana, uma apuração preliminar sobre o assunto por falta de elementos suficientes para a abertura de um inquérito.

Parlamentares questionam ações do governo Trump

O documento enviado a Marco Rubio menciona episódios recentes que, na avaliação dos congressistas, contribuíram para o aumento da tensão diplomática entre Washington e Brasília.

Entre os pontos citados está a revogação do visto diplomático da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, além de contatos recentes de integrantes do governo americano com pessoas ligadas à família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Os deputados também questionam a atuação de autoridades americanas que demonstraram interesse no sistema eleitoral brasileiro. Para os parlamentares, o conjunto de medidas levanta dúvidas sobre a possibilidade de o governo Trump ter buscado influenciar o cenário político brasileiro.

A carta é assinada, entre outros, por Gregory Meeks, principal democrata da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, e James McGovern, integrante da Comissão de Direitos Humanos.

Carta cobra respostas de Marco Rubio

Os parlamentares apresentaram sete perguntas ao secretário de Estado americano. Entre elas está a solicitação para que o governo esclareça se autorizou contatos com integrantes da família Bolsonaro e quais foram os motivos para que autoridades americanas buscassem informações ou avaliações sobre o sistema eleitoral brasileiro.

O grupo também questiona a condução da política externa dos Estados Unidos em relação ao Brasil e afirma que a relação entre os dois países não deveria ser orientada pela preferência de Washington por determinado candidato.

Segundo os congressistas, uma eventual interferência poderia prejudicar a relação bilateral e favorecer uma aproximação maior do Brasil com países considerados adversários estratégicos dos Estados Unidos.

Os parlamentares pediram respostas formais de Rubio até 20 de outubro, cinco dias antes do segundo turno brasileiro.

Não é a primeira cobrança no Congresso americano

A manifestação desta semana ocorre depois de outras cartas enviadas por parlamentares democratas ao governo Trump. No fim de setembro, três senadores democratas, Jeanne Shaheen, Peter Welch e Tim Kaine, também questionaram a possibilidade de interferência americana nas eleições brasileiras.

Na ocasião, os senadores perguntaram, entre outros pontos, se o governo dos Estados Unidos se comprometeria a reconhecer o resultado das eleições brasileiras e alertaram para os efeitos que medidas de Washington poderiam provocar na relação estratégica entre os dois países.

Antes disso, em 24 de setembro, um grupo ainda maior, formado por 31 parlamentares democratas, havia encaminhado outra carta a Rubio com críticas à atuação do governo Trump em relação ao Brasil. O documento apontava preocupação com medidas que, segundo os congressistas, poderiam pressionar instituições brasileiras às vésperas da eleição.

A sequência de manifestações mostra que a relação entre Washington e Brasília passou a ocupar espaço também no debate político interno dos Estados Unidos.

PF arquiva apuração sobre possível interferência

No Brasil, a discussão ganhou outro desdobramento nesta semana. A Advocacia-Geral da União (AGU) havia encaminhado à Polícia Federal um pedido para apurar uma possível interferência estrangeira nas eleições.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, confirmou no domingo (4), dia do primeiro turno, que a corporação havia iniciado uma análise preliminar da representação. O procedimento ficou sob responsabilidade da Diretoria de Inteligência da Polícia Federal.

Na quarta-feira (7), porém, a PF decidiu arquivar a solicitação. Segundo informações divulgadas pela corporação, não foram encontrados elementos mínimos que justificassem a abertura de um inquérito policial.

A representação da AGU havia sido motivada, entre outros fatores, por informações sobre recursos destinados pelo governo americano a um projeto relacionado a críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo reportagens, o programa teria recebido US$ 1 milhão, mas a existência desse financiamento, por si só, não foi considerada pela PF suficiente para justificar uma investigação criminal sobre interferência eleitoral.

Relação entre Brasil e EUA segue sob tensão

O episódio acontece em um momento de desgaste diplomático entre Brasil e Estados Unidos, marcado por divergências políticas, econômicas e institucionais.

As manifestações de parlamentares democratas fazem parte de uma disputa política também dentro dos próprios Estados Unidos sobre a política externa adotada pelo governo Trump. Já no Brasil, as acusações sobre uma eventual interferência americana foram analisadas pelas autoridades competentes, mas, até o momento, não resultaram na abertura de um inquérito pela Polícia Federal.

Com o segundo turno brasileiro marcado para 25 de outubro, o tema deve continuar sob atenção. De um lado, parlamentares americanos cobram explicações sobre a conduta do governo Trump. De outro, as autoridades brasileiras afirmam não ter encontrado elementos suficientes para avançar com uma investigação formal sobre interferência estrangeira.

O episódio revela como a eleição brasileira ultrapassou as fronteiras nacionais e passou a ser acompanhada de perto também no cenário internacional. Entre cobranças diplomáticas, disputas políticas e investigações que não avançaram, o que permanece no centro do debate é a necessidade de separar suspeitas, acusações e fatos comprovados. Em uma eleição marcada por forte polarização, cada informação ganha peso, e a transparência sobre sua origem e seus fundamentos se torna ainda mais importante para que o eleitor possa acompanhar os acontecimentos com segurança e consciência.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Reuters

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