Reportagem da piauí reúne mensagens, documentos e movimentações financeiras que levantam questionamentos sobre a relação do ministro do STF com Daniel Vorcaro e pessoas ligadas ao Banco Master.
Novas informações extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro colocam o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), no centro de mais um capítulo da crise envolvendo o Banco Master. Mensagens, documentos e registros financeiros reunidos pela revista piauí apontam para uma sequência de contatos que envolve um julgamento no STF, uma empresa ligada ao filho do ministro, viagens e outros episódios de proximidade com o banqueiro.
Os elementos fazem parte de uma investigação ainda em andamento e, isoladamente, não comprovam compra de decisão judicial, pagamento direto a Nunes Marques ou qualquer irregularidade praticada pelo ministro. Nunes Marques nega as acusações e afirma que nunca julgou processo relacionado diretamente ao Banco Master. O filho dele, o advogado Kevin Marques, também nega ter recebido dinheiro de Vorcaro ou prestado serviços ao banco.
O voto que terminou em “Dominado aqui”
Um dos principais episódios levantados pela reportagem envolve um julgamento da Segunda Turma do STF relacionado à Destilaria Alcídia. O processo discutia uma reparação de prejuízos provocados pela União e, segundo estimativas citadas pela piauí a partir de informações da Polícia Federal, o resultado poderia ter impacto sobre uma carteira de precatórios superior a R$ 10 bilhões relacionada ao setor sucroalcooleiro e presente no balanço do Banco Master.
Em fevereiro de 2024, uma certidão do próprio Supremo registrou Nunes Marques como impedido de participar do julgamento. O motivo estava relacionado à atuação anterior do ministro no caso, quando ainda era desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Posteriormente, porém, Nunes Marques informou que o impedimento havia sido lançado por equívoco de sua assessoria e se declarou apto a participar da análise.
Em 1º de outubro de 2024, seu voto foi decisivo para o resultado de 3 a 2 favorável à tese da Alcídia. Na sequência, segundo as mensagens obtidas pela Polícia Federal e reproduzidas pela piauí, Luiz Rennó, então advogado de confiança de Vorcaro e assessor jurídico do Master, informou ao banqueiro: “Ganhamos alcidia”. Em seguida, apresentou o placar e, minutos depois, ao lado do contato de Kevin Marques, escreveu: “Dominado aqui”.
A assessoria de Nunes Marques afirma que o ministro entendeu tecnicamente que não estava impedido e que o processo não era uma ação do Banco Master. Segundo a defesa, tratava-se de uma tese que poderia alcançar diversas empresas. O ministro também afirmou que nunca votou em favor do Banco Master.
Transferências milionárias para empresa ligada ao filho
Outro ponto levantado pela reportagem envolve a Consult Inteligência Tributária, empresa que possui relações societárias e financeiras com pessoas próximas à família de Nunes Marques.
Segundo a piauí, o capital social da empresa saltou de R$ 10 mil para R$ 500 mil em maio de 2024, sem que o documento societário identificasse a origem dos R$ 490 mil acrescentados. Pouco depois, a estrutura societária da empresa também passou por mudanças.
A partir de agosto daquele ano, a Consult começou a receber valores elevados. Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram 14 transferências do Banco Master que totalizaram R$ 6,62 milhões entre agosto de 2024 e julho de 2025. No mesmo período, a empresa recebeu R$ 11,38 milhões da JBS. Os valores chamaram atenção porque contrastavam com o faturamento mensal declarado pela empresa, de aproximadamente R$ 25,5 mil.
A Consult, por sua vez, realizou 11 transferências para Kevin Marques, que somaram R$ 282 mil. O advogado afirma que os valores foram referentes a serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa e nega ter prestado serviços ao Banco Master ou recebido dinheiro diretamente de Daniel Vorcaro.
Mensagens mencionam R$ 500 mil por mês
As mensagens extraídas do celular de Vorcaro acrescentaram outro elemento à investigação. Em julho de 2025, Luiz Rennó encaminhou ao banqueiro o contato de Kevin Marques e perguntou se um pagamento de “500 mil mês” seria mantido. Vorcaro respondeu com uma mensagem de risada.
Em outro diálogo, de agosto do mesmo ano, Rennó afirmou que estava faltando a Consult entre os “pagamentos essenciais”. Na sequência, encaminhou novamente o contato de Kevin, identificando-o como a pessoa relacionada à operação. Mais tarde, informou ao banqueiro que o pagamento havia sido realizado.
A existência dessas mensagens, porém, não permite concluir, por si só, que os R$ 500 mil mencionados tenham sido efetivamente pagos a Kevin ou que os valores tenham relação direta com as transferências identificadas pelo Coaf. A própria piauí ressalta essa limitação na reportagem.
Viagem de jato e hospedagem também entram na apuração
A relação entre Vorcaro e pessoas próximas a Nunes Marques também aparece em registros relacionados a viagens.
Segundo a piauí, em novembro de 2025, poucos dias antes da prisão do banqueiro, mensagens mostram Vorcaro tratando de uma viagem em um jato Legacy 650, com saída de Brasília. As conversas mencionavam bebidas e outros detalhes da viagem.
Dois dias depois, Nunes Marques e sua mulher embarcaram em um Legacy 650 com destino a Maceió, onde participaram de uma festa de aniversário. A aeronave era operada pela Prime Aviation, empresa da qual Vorcaro havia sido sócio. A advogada Camilla Ewerton Ramos, ligada ao Banco Master, afirmou ter contratado pessoalmente o jato e ficado responsável pelos detalhes da viagem.
Outro episódio mencionado envolve o Carnaval de 2025 e uma hospedagem em uma mansão no Rio de Janeiro. Mensagens atribuídas a Vorcaro fazem referência a um ministro identificado pelas iniciais “KN”, que a Polícia Federal apontaria como Nunes Marques. O ministro não se manifestou sobre esse episódio específico.
CPI do Banco Master aguarda decisão
Outro ponto que chama atenção é a atuação de Nunes Marques em um processo relacionado à instalação de uma CPI do Banco Master.
Desde março, o ministro é relator de um mandado de segurança que pede ao STF que determine ao Senado a instalação da comissão. O requerimento havia reunido 53 assinaturas, quase o dobro do mínimo necessário.
Segundo a reportagem, quase seis meses depois, Nunes Marques ainda não havia proferido despacho no processo. No mesmo período, porém, participou de julgamento relacionado à prisão preventiva de Vorcaro e votou pela manutenção da prisão do banqueiro e de outros investigados.
Ministro nega irregularidades
Diante das revelações, Nunes Marques voltou a defender sua atuação. Em manifestação no plenário do STF em 15 de setembro, afirmou que nunca havia julgado processo relacionado ao Banco Master e disse que tinha “absoluta isenção” nos casos em que atuou.
O ministro também negou qualquer relação direta com Vorcaro e afirmou que seu filho nunca recebeu dinheiro do banqueiro. Kevin Marques, por sua vez, sustenta que os pagamentos recebidos da Consult foram por serviços jurídicos e que sua atividade profissional não possui relação com o STF.
É importante separar, neste momento, fatos documentados de conclusões ainda não comprovadas. As mensagens, registros financeiros, documentos e viagens relatados pela piauí constituem elementos de uma investigação e levantam questionamentos sobre a proximidade entre Nunes Marques, seu círculo familiar e pessoas ligadas ao Banco Master. Eles não estabelecem, até o momento, que tenha ocorrido compra de decisão judicial ou pagamento ilícito ao ministro.
O caso agora avança em uma área especialmente sensível: a relação entre dinheiro, interesses empresariais e integrantes da mais alta Corte do país. À medida que novas mensagens e documentos vêm à tona, cresce também a necessidade de esclarecer o significado de cada contato, cada transferência e cada decisão. No centro dessa história está uma pergunta que somente a investigação poderá responder com segurança: onde termina a relação pessoal e profissional e onde, eventualmente, começaria um conflito de interesses?
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Supremo Tribunal Federal













