Aliança liderada pelos Estados Unidos reúne 19 países e prevê ações coordenadas contra organizações criminosas, incluindo sanções ao PCC e ao Comando Vermelho.
Uma nova frente internacional de combate ao crime organizado ganhou força nesta semana e colocou duas das principais facções criminosas brasileiras no centro de uma ofensiva regional. O chamado “Escudo das Américas”, liderado pelos Estados Unidos, anunciou medidas contra 24 organizações classificadas pela aliança como “narcoterroristas transnacionais”, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
O acordo foi anunciado na terça-feira (22), durante uma reunião realizada em Nova York, paralelamente à Assembleia Geral da ONU. A declaração prevê que os países participantes adotem, de acordo com suas próprias legislações e obrigações internacionais, medidas como congelamento de bens, restrições de vistos e imigração e responsabilização criminal de pessoas que ofereçam conscientemente apoio material ou logístico aos grupos.
Uma aliança que reúne 19 países
O “Escudo das Américas”, também chamado de Coalizão das Américas contra os Cartéis, foi lançado em março por iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Atualmente, a coalizão reúne 19 países das Américas, incluindo Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, entre outras nações da América Latina e do Caribe. Brasil e México não fazem parte da iniciativa.
A proposta declarada é ampliar a cooperação entre os países no combate ao narcotráfico e às organizações criminosas transnacionais. O grupo trabalha com compartilhamento de informações de inteligência, articulação entre forças de segurança e operações coordenadas contra estruturas ligadas ao tráfico de drogas e ao crime organizado.
PCC e Comando Vermelho entram na primeira ação conjunta
A primeira ação anunciada pela coalizão tem como alvo 24 organizações. Além do PCC e do Comando Vermelho, a relação inclui grupos como o Tren de Aragua, da Venezuela, a Mara Salvatrucha, de El Salvador, o ELN, da Colômbia, o Sendero Luminoso, do Peru, além de organizações criminosas mexicanas.
No caso das facções brasileiras, a declaração estabelece que os países signatários poderão adotar medidas contra integrantes, associados e apoiadores, respeitando as legislações nacionais. Entre as possibilidades estão o bloqueio de ativos, restrições migratórias e de vistos e medidas penais contra quem prestar apoio material ou logístico de forma consciente.
A classificação, porém, não altera automaticamente a legislação brasileira. O Brasil não integra a coalizão e possui regras próprias para o enquadramento jurídico de organizações criminosas e atos de terrorismo.
Operações militares fazem parte da estratégia
A atuação do “Escudo das Américas” não se limita a medidas financeiras e migratórias. A aliança também prevê cooperação militar e compartilhamento de inteligência entre os países participantes.
A estratégia já começou a produzir operações concretas. Em agosto, Estados Unidos e Equador realizaram ações conjuntas contra organizações ligadas ao narcotráfico. A Colômbia também autorizou operações militares conjuntas com os norte-americanos no combate às redes criminosas.
O modelo adotado pelos Estados Unidos tem como referência operações realizadas anteriormente contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico. A ampliação da cooperação pretende levar esse tipo de atuação para outros pontos do continente.
Presença americana aumenta na região
Além das operações conjuntas, a aproximação militar entre Washington e governos latino-americanos também vem aumentando. Equador e Colômbia já estabeleceram acordos para ações militares coordenadas com os Estados Unidos, enquanto outros países negociam mecanismos de cooperação na área de segurança.
A iniciativa também está inserida em uma estratégia mais ampla do governo Trump para reforçar a atuação dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. O governo americano apresenta o combate ao narcotráfico e ao crime organizado como uma questão de segurança regional, enquanto especialistas divergem sobre o alcance político e estratégico da aliança.
Brasil acompanha movimento de fora
A inclusão do PCC e do Comando Vermelho na declaração aumentou a repercussão da iniciativa no Brasil. O governo brasileiro não participou da reunião que resultou no documento e, segundo informações divulgadas pela imprensa, a diplomacia brasileira foi surpreendida pelo anúncio.
O episódio coloca o combate às organizações criminosas brasileiras dentro de uma discussão que ultrapassa as fronteiras nacionais. De um lado, os países participantes defendem maior integração para enfrentar redes que atuam internacionalmente. De outro, a iniciativa levanta debates sobre soberania, legislação nacional e os limites da participação militar estrangeira no combate ao crime.
O “Escudo das Américas” entra, assim, em uma nova fase, na qual a cooperação internacional deixa de ser apenas uma proposta e passa a envolver sanções, inteligência e operações conjuntas. Para o Brasil, a movimentação representa um novo cenário no enfrentamento de organizações que já ultrapassaram as fronteiras nacionais e coloca em debate até onde deve avançar a cooperação internacional sem abrir mão da autonomia de cada país.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Brasil 247













