Ministro André Mendonça aposta em aval coletivo da Segunda Turma para dar segurança jurídica e impedir futuras anulações, em contraste com práticas vistas na Lava Jato.
Em meio a um cenário de desconfiança institucional que ainda ecoa episódios recentes da Justiça brasileira, uma nova estratégia dentro do Supremo Tribunal Federal chama atenção. O movimento, liderado pelo ministro André Mendonça, surge como uma tentativa clara de evitar que decisões de hoje sejam questionadas amanhã, como já aconteceu em casos que marcaram o país.
Segundo apuração do analista político Matheus Teixeira, apresentada no Live CNN desta sexta-feira (17), Mendonça tem adotado uma postura cuidadosa e estratégica: levar rapidamente suas decisões individuais para o crivo da Segunda Turma da Corte, transformando atos monocráticos em decisões colegiadas.
Blindagem contra nulidades
A leitura dentro de uma ala do STF é de que essa postura busca dar não apenas celeridade, mas principalmente solidez jurídica às decisões do chamado caso Master. Ao submeter suas determinações ao colegiado, Mendonça reduz o risco de que elas sejam anuladas no futuro.
Essa estratégia já foi aplicada em decisões recentes, como as prisões de Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa e Daniel Monteiro. Em todos os casos, o ministro apresentou fundamentações extensas e, ao final, encaminhou os atos para revisão da Segunda Turma.
Na prática, o gesto muda o peso das decisões. O que antes seria um entendimento individual passa a carregar a força de um posicionamento coletivo, tornando mais difícil qualquer contestação futura.
Lições da Lava Jato
A estratégia não surge por acaso. Ela dialoga diretamente com os desdobramentos da Operação Lava Jato, cujas decisões foram, anos depois, amplamente revistas e anuladas.
Naquele período, o então juiz Sergio Moro tomou diversas decisões individuais que, embora validadas inicialmente por instâncias superiores, acabaram sendo questionadas após a revelação de mensagens entre magistrado e procuradores, o que comprometeu a credibilidade de parte dos processos.
Agora, o movimento de Mendonça parece buscar justamente o oposto: transparência, colegialidade e segurança jurídica desde o início.
Composição da Segunda Turma e cenário de incerteza
A Segunda Turma do STF, responsável por revisar decisões criminais, é formada por nomes de peso como Kassio Nunes Marques, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Dias Toffoli, além do próprio Mendonça.
No entanto, Toffoli já se declarou suspeito para julgar o caso envolvendo Vorcaro e deve manter essa posição nos desdobramentos seguintes. Esse fator abre margem para empates nas votações e, no direito penal, o empate favorece o investigado.
Apesar disso, na primeira análise do caso, houve consenso entre os ministros. Ainda assim, Gilmar Mendes fez um alerta importante sobre o uso de prisões preventivas, ressaltando que se trata de uma medida excepcional que exige cautela.
No fundo, mais do que uma estratégia jurídica, o que se desenha no STF é uma tentativa de reconstruir confiança. Em um país onde decisões judiciais já foram desfeitas após anos, deixando marcas profundas, cada movimento agora carrega um peso maior. E talvez seja justamente essa consciência que esteja guiando os passos: porque, no fim, não se trata apenas de julgar, mas de garantir que a Justiça permaneça de pé diante do tempo.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/O Tempo













