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Governo Lula aposta no STF para barrar lei que legalizou apostas online no Brasil

Integrantes do Planalto veem na declaração de inconstitucionalidade da legislação de 2018 uma saída para resolver impasse jurídico envolvendo as bets e evitar possíveis derrotas no Congresso Nacional.

O avanço das apostas online no Brasil, que passaram a fazer parte da rotina de milhões de pessoas, voltou ao centro de uma disputa política e jurídica em Brasília. Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apostam agora em uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar a lei de 2018 que autorizou o funcionamento das chamadas bets no país.

A avaliação dentro do governo é de que uma eventual declaração de inconstitucionalidade da legislação pode solucionar o impasse jurídico em torno do setor e evitar que o Executivo enfrente novos obstáculos no Congresso Nacional. A estratégia também pode dar sustentação às medidas adotadas pelo presidente para restringir a atividade.

Entenda como começou a legalização das bets

A legislação que abriu caminho para o funcionamento das apostas esportivas online no Brasil foi aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo então presidente Michel Temer (MDB), nos últimos dias de seu governo, em 2018.

Cinco anos depois, em dezembro de 2023, Lula sancionou uma nova lei, aprovada por deputados e senadores, estabelecendo regras para regulamentar a atividade no país.

Já no final de setembro, às vésperas do primeiro turno das eleições, o governo anunciou, por meio de uma medida provisória, a proibição de cassinos online, incluindo jogos como o chamado Tigrinho, além de casas de apostas esportivas.

A iniciativa, entretanto, abriu uma nova frente de discussão jurídica. Ao longo dos últimos anos, sete ações foram apresentadas ao STF por entidades, associações, partidos políticos e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), questionando a validade da legislação de regulamentação de 2023 e da medida provisória editada por Lula neste ano.

Governo vê decisão do STF como saída para impasse

Nos bastidores, integrantes do governo que acompanham as discussões na Suprema Corte avaliam que a derrubada da lei de 2018 seria o caminho mais eficiente para resolver a controvérsia.

Isso porque, apesar de já estar em vigor desde sua publicação, a medida provisória que prevê o fim das bets ainda precisa passar pela votação de deputados e senadores para manter sua validade. Sem aprovação do Congresso, a iniciativa pode perder seus efeitos.

A estratégia defendida por integrantes do Executivo é que, caso o STF declare inconstitucional a lei que autorizou originalmente o funcionamento das apostas, a própria medida provisória de Lula perderia sua finalidade jurídica. Da mesma forma, as ações que questionam a iniciativa presidencial ficariam sem objeto e poderiam ser extintas.

Com isso, o governo evitaria depender exclusivamente de uma votação no Congresso Nacional, onde a proposta poderia enfrentar resistência política.

Ministros de Lula defendem restrições e apontam danos às famílias

Durante audiência no STF que discutiu os impactos econômicos do fim das apostas online, o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, defendeu uma atuação mais rigorosa do poder público diante dos efeitos provocados pelo setor.

Segundo ele, a regulamentação existente não conseguiu garantir proteção efetiva à população.

“As bets têm provocado uma corrosão silenciosa das famílias brasileiras”, afirmou Messias.

O ministro também argumentou que a criação de regras para o funcionamento das plataformas não foi suficiente para controlar os problemas associados ao modelo de negócio.

“A existência de uma regulamentação não se traduziu em uma proteção efetiva que a Constituição exige. Esse dragão era impossível de se domar”, declarou.

Na mesma audiência, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, também defendeu a intervenção do Estado. Para ele, o poder público não pode permanecer inerte diante dos prejuízos provocados pela expansão das apostas.

Disputa vai além da regulamentação

A discussão sobre o futuro das bets no Brasil ultrapassa os limites de uma disputa entre governo, Congresso e Judiciário. Envolve também os impactos econômicos e sociais de um mercado que cresceu rapidamente e passou a levantar preocupações sobre endividamento, comprometimento da renda e vulnerabilidade das famílias.

A aposta do governo agora está no STF, onde uma decisão poderá redefinir os rumos jurídicos de todo o setor. Enquanto isso, permanece o desafio de encontrar um equilíbrio entre a atuação do Estado, a segurança jurídica e a proteção dos brasileiros diante de uma atividade que movimenta grandes interesses econômicos e tem consequências que chegam diretamente à vida de milhares de famílias.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Antônio Augusto/STF

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