Decisões sobre Glauber e Zambelli uniram esquerda e direita em reação à condução considerada autoritária do presidente da Casa.
A noite de quarta-feira (10) expôs, de forma contundente, o desgaste político do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Ao tentar dar um “exemplo institucional” e avançar sobre a pauta ideológica sem aviso prévio, ele acabou provocando uma das articulações mais improváveis dos últimos meses: esquerda e direita unidas para frear sua postura considerada abrupta e pouco dialogada.
Até poucos dias atrás, a cassação de Glauber Braga (PSOL-RJ) e de Carla Zambelli (PL-SP) era tratada como praticamente inevitável dentro da própria Câmara. Mas a decisão repentina de Hugo de levar ambos os casos ao plenário no mesmo dia acendeu o alerta entre as bancadas, que viram no gesto uma tentativa de impor força política sem construir consenso.
Acordo silencioso vira o jogo
Nos bastidores, longe dos olhos do presidente da Casa, parlamentares costuraram um acordo que mudou completamente o cenário. A direita aceitou apoiar uma pena mais branda para Glauber: a suspensão de seis meses, impedindo a cassação que Hugo apostava como certa. Já a esquerda optou por não se mobilizar integralmente pela cassação de Zambelli, que terminou recebendo menos votos do que o esperado para perder o mandato.
O resultado não foi uma vitória de campos ideológicos, mas uma derrota clara de Hugo Motta. Deputados governistas e de oposição comemoraram o desfecho, não pelo mérito dos casos, mas por terem conseguido enviar um recado direto à presidência da Câmara.
Críticas à condução da pauta e alerta para 2027
A avaliação entre parlamentares é de que Hugo tem conduzido a Casa com pouca transparência e diálogo reduzido, especialmente em relação à pauta legislativa. Os episódios desta semana reforçaram a percepção de que o presidente da Câmara busca centralizar decisões sem consultar líderes e bancadas, o que tem ampliado seu isolamento político.
O movimento de resistência visto no plenário sinaliza um desgaste que pode se refletir nos planos de longo prazo de Hugo. Nos corredores do Congresso, a leitura é de que, mantido o atual clima, nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tendem a apoiar uma eventual tentativa de Hugo de se manter no comando da Câmara em 2027.
A derrota dupla, portanto, vai muito além dos resultados de duas votações. Ela expõe uma mudança no equilíbrio interno de forças e coloca em xeque a liderança de Hugo Motta, que agora terá de recalibrar sua atuação se quiser recuperar a confiança e a articulação que o cargo exige.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados













