Campanha destinou R$ 6,9 milhões a adesivos e materiais impressos no primeiro turno, enquanto o impulsionamento digital consumiu R$ 2,69 milhões.
A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entra no segundo turno com uma mudança de estratégia na comunicação. Depois de terminar a primeira etapa da eleição atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o presidente passou a dar mais espaço às redes sociais, especialmente aos vídeos em formato selfie, em uma tentativa de aproximar sua comunicação do eleitorado digital.
A mudança ocorre depois de uma campanha que concentrou mais recursos em estruturas tradicionais de divulgação. Segundo dados da prestação de contas eleitoral, Lula declarou R$ 65,64 milhões em despesas no primeiro turno. Desse total, R$ 2,69 milhões foram destinados ao impulsionamento de conteúdos nas redes sociais, enquanto os gastos com publicidade por adesivos e materiais impressos somaram aproximadamente R$ 6,91 milhões.
Redes sociais ficaram em segundo plano
O investimento em impulsionamento digital representou cerca de 4% das despesas declaradas pela campanha de Lula e apareceu entre os principais tipos de gastos, mas atrás de serviços prestados por terceiros, eventos, serviços advocatícios e publicidade física.
Na comparação com o adversário, a diferença também chama atenção. Flávio Bolsonaro declarou investimentos superiores em impulsionamento digital durante o primeiro turno, enquanto Lula concentrou parcela maior de seus recursos em outras estruturas de campanha.
A estratégia digital adotada agora representa uma mudança em relação ao comportamento do presidente durante a primeira fase da disputa. Lula é conhecido por manter distância do uso cotidiano do celular e admitiu nesta quarta-feira (7) que não costuma utilizar o aparelho.
“Eu não uso celular porque tenho a mão para fazer outras coisas. E eu gosto de falar somente o essencial”, afirmou.
A declaração ocorreu justamente no momento em que o presidente passou a utilizar o celular para gravar vídeos destinados às redes sociais. Um dos conteúdos publicados convocou apoiadores para intensificar a mobilização nas ruas durante o segundo turno.
Jovens aliados pressionam por nova comunicação
A mudança ganhou força após reuniões de Lula com parlamentares e aliados que tiveram bom desempenho nas eleições. Entre eles está Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), eleita aos 21 anos como a deputada federal mais jovem do país.
A parlamentar defendeu uma comunicação mais adaptada ao ambiente digital e resumiu a mudança de comportamento dos eleitores ao afirmar que “o nosso maior panfleto está no telefone, na rede social”. Segundo ela, a equipe trabalhou para levar Lula às plataformas de uma maneira com a qual o presidente se sentisse confortável.
Outra influência foi o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que sugeriu que Lula gravasse mais vídeos em formato selfie. A ideia começou a ser colocada em prática nesta semana, com conteúdos mais diretos e espontâneos publicados em plataformas como Instagram e TikTok.
A aposta busca aproximar o candidato de um público que consome cada vez mais conteúdo político diretamente pelas redes, reduzindo a distância entre o eleitor e a figura do candidato.
Campanha admite falhas no primeiro turno
A mudança na comunicação ocorre em meio a uma avaliação mais ampla sobre os resultados do primeiro turno. Lula terminou a votação com 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% de Flávio Bolsonaro, diferença de 1,87 ponto percentual.
Na quarta-feira (7), o próprio presidente fez uma avaliação crítica da campanha. Em reunião com parlamentares aliados, afirmou que a campanha deste ano foi a menos organizada de suas disputas presidenciais desde 1989.
“Acho que nós fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade, poderíamos ter feito mais. Disse para o Edinho que essa foi a campanha menos organizada que participei desde 1989”, declarou Lula.
A fala ocorreu enquanto a campanha passa por uma reorganização para o segundo turno. Entre as mudanças estão a ampliação da participação de aliados na estratégia política e de comunicação, além de uma presença maior nas redes sociais.
Quanto Lula gastou no primeiro turno
Os dados da prestação de contas mostram a seguinte distribuição entre os principais tipos de despesas declaradas pela campanha:
- Serviços prestados por terceiros: R$ 40,77 milhões
- Eventos de promoção da candidatura: cerca de R$ 6,2 milhões
- Serviços advocatícios: R$ 4,03 milhões
- Publicidade por adesivos: R$ 3,86 milhões
- Publicidade por materiais impressos: R$ 3,05 milhões
- Impulsionamento de conteúdos: R$ 2,69 milhões
- Pesquisas ou testes eleitorais: R$ 1,5 milhão
Os números correspondem à prestação de contas disponível e podem sofrer alterações conforme novas informações sejam apresentadas à Justiça Eleitoral.
Segundo turno começa com nova linguagem
A mudança não se limita ao valor destinado à publicidade digital. A campanha tenta alterar também a forma como Lula conversa com o eleitor. Vídeos curtos, gravações feitas pelo próprio presidente e uma linguagem mais direta passaram a integrar a estratégia.
O movimento ocorre justamente depois de o primeiro turno mostrar a força das redes na disputa eleitoral e de o próprio comando da campanha reconhecer a necessidade de reorganização. O desafio agora é transformar a mudança de comunicação em uma presença digital mais constante, sem abandonar os formatos tradicionais que marcaram a primeira etapa.
A eleição entra, assim, em uma nova fase na qual cada mensagem, plataforma e escolha de comunicação passa a ter peso maior. Para Lula, a estratégia será fazer com que uma campanha que começou fortemente apoiada no modelo tradicional consiga estabelecer, em poucas semanas, uma conexão mais direta com um eleitor cada vez mais presente na tela do celular.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Ricardo Stuckert/PR













