Figura popular e símbolo de uma causa inusitada, ele deixa legado marcado por humor, reflexão e combate à violência nos relacionamentos.
A notícia da morte de Pedro Soares, conhecido em toda Porto Velho como “Pedro da Ascron”, provocou um sentimento coletivo difícil de explicar. Entre o riso que ele sempre despertou e o respeito que conquistou ao longo dos anos, fica agora o vazio deixado por uma figura única, que transformou dor pessoal em mensagem social. Aos 68 anos, o servidor da Câmara Municipal morreu após sofrer um infarto, permanecendo internado por seis dias.
Pedro não era apenas um personagem folclórico. Por trás da irreverência, havia alguém que encontrou um jeito próprio de dialogar com temas delicados, como a traição e, principalmente, a violência nos relacionamentos. Sua partida encerra um capítulo importante da cultura popular da capital rondoniense.

Uma história que virou causa
Presidente da Ascron, a Associação dos Cornos de Rondônia, Pedro Soares ficou conhecido por transformar uma experiência pessoal em bandeira pública. Com humor afiado e discurso direto, defendia que homens traídos não reagissem com agressividade, mas com consciência e maturidade.
A mensagem, embora carregada de irreverência, tinha um propósito claro e ganhou repercussão dentro e fora de Rondônia. Pedro usava o riso como ferramenta para quebrar preconceitos e provocar reflexão, levando um debate sério a públicos diversos.
Da capital para o Brasil
Em 2008, Pedro ganhou visibilidade nacional ao participar do quadro “Me Leva Brasil”, do programa Fantástico, da TV Globo, ao lado do repórter Maurício Kubrusly. Na ocasião, apresentou ao país a atuação da Ascron e a já conhecida entrega de carteirinhas aos associados.
Ao longo dos anos, também esteve em emissoras como Record, Record News, Band e SBT, sempre levando sua personalidade marcante. Entre entrevistas e participações, consolidou sua imagem como uma figura que transitava entre o humor e a crítica social.
Tentativa na política e reconhecimento popular
Em 2012, Pedro decidiu levar sua mensagem para as urnas e se candidatou a vereador. Obteve 453 votos e, mesmo sem se eleger, conquistou projeção nacional como um candidato que não abria mão do bom humor nem mesmo na política.
O reconhecimento veio de diversas formas. Em 2023, foi homenageado no tradicional bloco carnavalesco Concentra Mas Não Sai. Já em 2024, recebeu o prêmio “Os Melhores do Ano”, além de outras homenagens que reforçaram sua popularidade e relevância social.
Histórias que viraram memória da cidade
Entre os episódios que marcaram a trajetória da Ascron, um dos mais curiosos segue vivo na memória dos moradores. Em determinado momento, foi roubada a cabeça de um boi, símbolo da associação, que ficava exposta em frente à sede, localizada na própria residência de Pedro.
O objeto nunca foi recuperado. Na época, ele resumiu o episódio com uma frase que atravessou os anos e virou quase uma lenda urbana na cidade: “Roubaram a cabeça do boi, mas quem fez isso, um mistério que pode nunca ser conhecido.”
Mais do que a história inusitada, o episódio simboliza o quanto Pedro e a Ascron se misturaram ao cotidiano e à identidade cultural de Porto Velho.
A despedida de Pedro Soares não é apenas a perda de um servidor público ou de uma figura popular. É o adeus a alguém que, à sua maneira, ensinou que até as dores mais íntimas podem ser transformadas em diálogo, leveza e aprendizado. Entre risos e reflexões, ele deixa um legado que dificilmente será esquecido.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/O Observador













