Brasil foi um dos países mais afetados pelo “tarifaço” de Donald Trump, e o fim dessa ferramenta nos Estados Unidos pode trazer alívio, mas também incertezas para exportadores e relações comerciais
Logo de cara, uma pergunta que pesa na cabeça de quem vive de comércio exterior, agronegócio ou indústria brasileira vem à tona: a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre as tarifas do governo Trump pode aliviar a pressão sobre o Brasil e reabrir caminhos para um comércio mais estável? A resposta é complexa, porque o desfecho nos tribunais no exterior se entrelaça com a vida de exportadores, preços no mercado e a própria geopolítica econômica global: assuntos que afetam empregos, preços e investimentos aqui no Brasil.
O que a Suprema Corte decidiu
Nesta sexta-feira (20), a Suprema Corte dos Estados Unidos concluiu por 6 votos a 3 que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês) não autoriza o presidente a impor tarifas amplas sobre a maioria dos parceiros comerciais, porque essa função cabe ao Congresso e não ao Executivo. A decisão derruba boa parte das tarifas impostas por Donald Trump sob esse argumento legal.
Laços econômicos e jurídicos: a corte considerou que Trump extrapolou sua autoridade ao usar uma lei de emergência para taxar importações, abrindo espaço para que importadores, inclusive empresas brasileiras, possam buscar reembolso de valores pagos indevidamente desde 2025.
Como o “tarifaço” afetou o Brasil
O Brasil chegou a ser atingido de forma significativa pelas tarifas de Trump. Em 2025, os Estados Unidos aplicaram alíquotas adicionais sobre produtos brasileiros que chegaram a 50% em determinados momentos, em um pacote conhecido como “tarifaço”, que incluiu alimentos, café, frutas e carnes entre os produtos taxados.
Parte dessas taxas chegou a ser reduzida após negociações entre Brasília e Washington, com exclusões para itens como suco de laranja, energia e aeronaves civis.
Antes da decisão da Suprema Corte, essas tarifas elevadas estavam em vigor, tornando mais caro para exportadores brasileiros acessar o mercado americano e pressionando empresas a buscarem mercados alternativos. Isso também repercutiu em câmbio, custos logísticos e competitividade de produtos brasileiros em segmentos como agronegócio e manufaturados.
O que muda (e o que ainda pode mudar)
A derrubada das tarifas baseadas na IEEPA não significa automaticamente o fim de todas as barreiras tarifárias entre os Estados Unidos e o Brasil. Algumas taxas impostas por outras leis ou em regimes setoriais, como tarifas sobre aço ou alumínio, podem permanecer em discussão ou vigência, sem serem afetadas diretamente pela decisão judicial.
Mas a decisão traz pelo menos duas possíveis consequências diretas para o Brasil:
1. Espaço para reembolso: importadores que pagaram tarifas consideradas ilegais sob a IEEPA podem buscar reembolso nos EUA, o que pode aliviar custos e incentivar o comércio entre os dois países.
2. Mudança na estratégia comercial americana: com a ferramenta de emergência bloqueada pelo Judiciário, a administração americana pode ter que recorrer a outros instrumentos legais para impor tarifas; o que tende a ser mais complexo e menos expansivo do que antes.
Reflexos para o comércio brasileiro
Para exportadores e setores que já vinham sentindo o peso das tarifas americanas, a decisão da Suprema Corte representa uma possível luz no fim do túnel, mas não elimina de imediato a instabilidade nas relações comerciais. A volatilidade tarifária de um grande parceiro econômico como os EUA traduz-se em incertezas que afetam investimentos, planejamento logístico e negociações bilaterais.
A derrubada desse mecanismo reforça que, em um mundo cada vez mais interconectado, decisões judiciais em Washington podem ter impacto concreto nas vidas de quem produz café no interior de Minas, carne bovina no Mato Grosso ou máquinas industriais no Sul do Brasil. Em última análise, a esperança de muitos exportadores é que essa decisão ajude a restabelecer um clima de previsibilidade: um ingrediente essencial para que os negócios atravessem fronteiras sem medo de surpresas abruptas.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Ricardo Stuckert/PR













