Governo calcula cerca de 50 votos favoráveis ao indicado de Lula para o STF, enquanto oposição avalia cenário mais difícil e diz que apoio não chegaria a 35 senadores.
A disputa por uma cadeira no Supremo Tribunal Federal vai muito além do currículo e da sabatina pública. Nos bastidores de Brasília, cada voto conta, cada articulação pesa e cada gesto político pode definir o futuro de uma indicação. É nesse cenário que o Palácio do Planalto trabalha para garantir a aprovação de Jorge Messias, atual advogado-geral da União, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o STF.
A expectativa do governo é otimista: a projeção levada ao presidente nesta segunda-feira (27) aponta cerca de 50 votos favoráveis no plenário do Senado, número que colocaria Messias acima da votação obtida por Flávio Dino em 2023 e próximo do desempenho de ministros já consolidados na Corte.
Governo projeta votação superior à de Dino
Segundo a contagem do Planalto, Jorge Messias pode alcançar um patamar intermediário entre os 47 votos conquistados por Flávio Dino em sua aprovação para o Supremo e os 52 votos obtidos por Edson Fachin em 2015.
A leitura de ministros da própria Corte é de que Messias possui um perfil menos confrontador e mais conciliador, o que ajuda a reduzir resistências entre parlamentares, especialmente entre setores mais conservadores e senadores ligados à bancada evangélica.
Além disso, o atual AGU é visto pelo governo como uma ponte importante entre o Executivo, o Congresso e segmentos religiosos que Lula tenta manter próximos de sua base política.
Oposição vê cenário mais apertado
Apesar do otimismo do governo, a oposição no Senado apresenta uma leitura bem diferente.
Parlamentares contrários à indicação, além de integrantes do centro que não se alinham automaticamente ao Planalto, afirmam que Jorge Messias enfrentará dificuldades e não alcançaria sequer 35 votos favoráveis.
Nos bastidores, o principal foco de resistência está em temas como aborto, atuação da AGU em pautas sensíveis, decisões ligadas ao 8 de Janeiro e críticas sobre a atuação do Supremo em relação ao Congresso.
Esses pontos devem ser explorados fortemente durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
Estratégia será evitar confronto na sabatina
Antes da votação em plenário, Messias passará pela sabatina no Senado, considerada uma das etapas mais decisivas do processo.
Segundo relatos feitos à CNN, o ministro tem se preparado para adotar uma postura de serenidade, sobriedade e tecnicidade, evitando embates diretos com senadores da oposição e fugindo de provocações políticas.
A estratégia é se apresentar como um nome de pacificação institucional, alguém capaz de melhorar a relação entre Judiciário e Legislativo em um momento de forte desgaste entre os Poderes.
Messias também pretende reforçar a ideia de que seu eventual gabinete no STF manterá diálogo aberto com parlamentares de diferentes correntes ideológicas, tanto da esquerda quanto da direita.
Aceno ao Congresso e à pauta ética
Outro ponto que deve ser destacado pelo indicado é o respeito às competências constitucionais de cada Poder, especialmente diante das frequentes críticas de que o STF estaria avançando sobre atribuições do Congresso Nacional.
Além disso, senadores que se reuniram recentemente com Messias afirmam que ele demonstrou simpatia pela adoção de regras mais transparentes de ética para magistrados do Supremo, tema que ganhou força após recentes polêmicas envolvendo ministros da Corte.
Esse posicionamento é visto como uma tentativa de reduzir resistências e ampliar apoio entre parlamentares mais críticos.
No fim das contas, a sabatina de Jorge Messias será muito mais do que um rito formal. Ela representa um teste de força política para o governo Lula e também um retrato do atual equilíbrio entre os Poderes em Brasília. No Supremo, cada cadeira carrega mais do que toga e gabinete: carrega influência, simbolismo e o peso de decisões que impactam todo o país.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil












