Pré-campanha do senador busca equilibrar acenos ao núcleo mais ideológico do bolsonarismo e a estratégia de ampliar apoio entre eleitores independentes.
Em uma disputa presidencial marcada pela polarização, conquistar novos eleitores sem perder a própria base é um dos desafios mais delicados para qualquer candidato. É justamente esse equilíbrio que a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) tenta encontrar após o desgaste provocado pelo caso Banco Master e a recente queda nas pesquisas de intenção de voto.
Nos bastidores, aliados do senador reconhecem que o momento exige cautela. Ao mesmo tempo em que a campanha busca dialogar com o eleitorado moderado e independente, considerado essencial para uma eventual vitória nas urnas, cresce a pressão para que sejam feitos gestos capazes de manter mobilizado o núcleo mais fiel e ideológico do bolsonarismo.
Estratégia busca equilíbrio entre moderação e identidade política
Segundo interlocutores da pré-campanha, a orientação atual é evitar movimentos bruscos que possam afastar setores mais amplos do eleitorado. A avaliação predominante é que uma campanha excessivamente voltada para a militância ideológica poderia dificultar a conquista de eleitores que não se identificam diretamente com nenhum dos polos políticos.
Apesar disso, existe uma ala dentro do grupo político que defende uma postura mais combativa e próxima do modelo adotado nas campanhas presidenciais de 2018 e 2022. Esse segmento, associado a figuras como Paulo Figueiredo e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, acredita que o fortalecimento do discurso ideológico seria o caminho mais eficaz para recuperar apoio.
Por enquanto, no entanto, a corrente considerada mais pragmática segue prevalecendo. O foco continua sendo a construção de uma campanha profissional, com mensagens capazes de dialogar para além da base tradicional do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Dois episódios recentes ilustram essa tentativa de equilíbrio. O primeiro foi a antecipação da apresentação das propostas para a área de segurança pública, evento que contou com a participação do senador Sergio Moro (PL-PR). Embora Moro ainda desperte resistência em setores mais radicais do bolsonarismo, sua presença reforça uma pauta considerada prioritária para o eleitorado conservador.
O segundo episódio gerou ainda mais repercussão. A divulgação de um vídeo produzido com inteligência artificial, mostrando Flávio e Jair Bolsonaro em um helicóptero combatendo facções criminosas, provocou debates dentro da própria campanha.
Vídeo divide opiniões entre aliados
Nos bastidores, a peça publicitária não foi recebida de forma unânime. Parte dos aliados avaliou que o conteúdo poderia prejudicar a imagem moderada que a campanha tenta construir junto ao eleitorado de centro.
Para esse grupo, o vídeo deveria ter sido divulgado por apoiadores ou influenciadores alinhados ao bolsonarismo, evitando sua associação direta aos canais oficiais do senador.
Já outra ala considerou que a publicação cumpriu exatamente o objetivo pretendido: sinalizar para os eleitores mais ideológicos que a campanha continua conectada às pautas e ao discurso que consolidaram o movimento bolsonarista nos últimos anos.
Investigações envolvendo Jaques Wagner animam equipe
Além das discussões estratégicas, a pré-campanha também passou a enxergar uma oportunidade política após o surgimento de investigações envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo relatos de bastidores, o ambiente entre aliados de Flávio é de maior otimismo. A avaliação é que o episódio ajuda a reduzir a pressão que vinha recaindo exclusivamente sobre o senador após as revelações sobre o pedido de recursos para financiar o filme “Dark Horse”, inspirado na trajetória política de Jair Bolsonaro.
A narrativa defendida pela equipe de Flávio busca estabelecer diferenças entre os dois casos. Interlocutores argumentam que, até o momento, não foram apontadas contrapartidas políticas ou ações em benefício de Vorcaro envolvendo o senador ou integrantes de sua família.
Esse discurso passou a ser tratado internamente como um dos principais instrumentos para tentar neutralizar críticas e reorganizar a estratégia eleitoral nos próximos meses.
Em campanhas presidenciais, muitas vezes os fatos têm impacto não apenas pelo que revelam, mas também pela forma como são interpretados e utilizados politicamente. A disputa pelas narrativas se torna quase tão importante quanto os próprios acontecimentos. E, à medida que o calendário eleitoral avança, cada episódio tende a ser incorporado às estratégias dos candidatos, tornando o debate público ainda mais intenso e decisivo para os rumos da eleição.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Intercept Brasil













