Governo brasileiro considera que Washington deve aguardar o resultado das eleições de 2026 antes de retomar negociações, reforça defesa da economia nacional, mantém a possibilidade de aplicar a Lei da Reciprocidade e prepara medidas para apoiar setores afetados.
Quando decisões comerciais passam a ser guiadas por interesses políticos, os reflexos ultrapassam fronteiras e chegam rapidamente à economia, às empresas e ao bolso da população. A nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros intensificou um embate diplomático que já vinha sendo acompanhado de perto pelo governo federal. Agora, Brasília aposta na negociação, mas também prepara instrumentos para defender os interesses nacionais caso o cenário se torne ainda mais desfavorável.
Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é de que a nova sobretaxa de 12,5% aplicada pelo governo de Donald Trump já era esperada. A medida, anunciada no âmbito da investigação americana sobre suposto descumprimento de normas relacionadas ao combate ao trabalho forçado, não surpreendeu integrantes do governo, que já haviam preparado uma resposta oficial antes mesmo da divulgação da decisão por Washington.
Planalto acredita que EUA vão esperar eleições brasileiras
A leitura do governo brasileiro é de que os Estados Unidos deverão reduzir o ritmo das negociações comerciais nos próximos meses e aguardar o resultado das eleições presidenciais de outubro de 2026 antes de definir os rumos do diálogo com o Brasil.
Segundo interlocutores do Planalto, a estratégia americana passa por identificar quem comandará o país a partir de 2027 antes de aprofundar qualquer negociação de maior impacto.
Dentro do governo também existe a expectativa de que novas manifestações de integrantes da administração Trump possam favorecer politicamente a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República.
Apesar do endurecimento das medidas, integrantes do governo avaliam que o impacto político e econômico das tarifas anunciadas neste ano não provoca o mesmo efeito observado durante o primeiro grande tarifaço imposto em 2025.
Brasil mantém aposta na negociação
Mesmo diante do aumento das barreiras comerciais, o governo brasileiro não pretende abandonar a via diplomática.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que a orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é manter as negociações com os Estados Unidos para tentar reverter tanto a tarifa de 25% aplicada anteriormente quanto ampliar a lista de produtos isentos da nova sobretaxa de 12,5%.
Segundo o ministro, o objetivo permanece o mesmo: evitar que novas tarifas prejudiquem empresas brasileiras e comprometam a competitividade das exportações nacionais.
Entre os produtos atualmente preservados da sobretaxa estão itens considerados estratégicos para o mercado americano, como carne bovina e café, classificados pelos próprios Estados Unidos como sensíveis para o controle da inflação doméstica.
Reciprocidade continua sobre a mesa
Embora a prioridade seja negociar, o governo reafirma que não abrirá mão da possibilidade de utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica.
Márcio Elias destacou que renunciar previamente a esse instrumento significaria abrir mão de um direito previsto para proteger a economia brasileira.
Segundo ele, o momento e a forma de eventual utilização dependerão da evolução das negociações.
Caso seja necessário, afirmou o ministro, o Brasil utilizará todos os mecanismos disponíveis para defender os setores produtivos atingidos.
Ao mesmo tempo, Brasília anunciou que levará o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC), contestando a legalidade da sobretaxa imposta pelos Estados Unidos.
Nos bastidores, entretanto, integrantes do governo reconhecem que uma eventual decisão favorável da OMC teria eficácia limitada, já que a administração Trump não reconhece a autoridade da entidade para arbitrar esse tipo de disputa comercial.
Exportações terão impactos diferentes
Segundo o MDIC, aproximadamente dois mil produtos brasileiros permanecerão livres tanto da tarifa adicional de 12,5% quanto da sobretaxa de 25%.
Outros segmentos, como celulose e pescados, estarão sujeitos apenas à cobrança de 12,5%.
Já alguns setores enfrentarão uma carga tributária acumulada de 37,5%, resultado da soma das duas tarifas.
Entre eles estão fabricantes de calçados, máquinas, equipamentos, peças, componentes industriais, confecções e produtos químicos, com exceção dos farmacêuticos.
O ministro classificou a nova tarifa como “indevida, ilegítima e ilegal”, afirmando que ela se baseia em argumentos que não refletem a realidade brasileira.
Segundo ele, o país possui um histórico reconhecido internacionalmente no combate ao trabalho forçado, mantendo fiscalização permanente, acolhimento às vítimas e compromissos assumidos em diversos acordos internacionais.
Plano Brasil Soberano será ampliado
Para reduzir os impactos econômicos, o governo informou que o programa Brasil Soberano 3 já está preparado para atender os setores afetados pela nova tarifa.
De acordo com Márcio Elias, a regulamentação da lei sancionada recentemente pelo presidente Lula permitirá incluir novos segmentos entre os beneficiados pelas medidas de apoio.
O comitê responsável pelo programa deverá definir, já na próxima semana, critérios para preservação de empregos e mecanismos de apoio às empresas prejudicadas.
Além do auxílio interno, o governo pretende incentivar a diversificação de mercados, fortalecer novas parcerias comerciais e preparar juridicamente as manifestações que serão apresentadas à Organização Mundial do Comércio.
Segundo o ministro, os primeiros contatos formais com os Estados Unidos sobre essa nova etapa das tarifas deverão ocorrer apenas em fevereiro, após a conclusão dos levantamentos técnicos e econômicos realizados pelo governo brasileiro.
Economia, diplomacia e política caminham juntas
A nova disputa comercial evidencia que as relações entre Brasil e Estados Unidos ultrapassam o campo econômico e passam também pela diplomacia e pelo cenário político. Enquanto empresários acompanham com preocupação os efeitos das tarifas sobre exportações e empregos, os governos buscam preservar seus interesses estratégicos em meio a um ambiente internacional cada vez mais competitivo. Nos próximos meses, a capacidade de diálogo e a construção de soluções negociadas poderão ser decisivas não apenas para minimizar prejuízos à economia brasileira, mas também para preservar uma das mais importantes relações comerciais do país.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação













