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Lula avalia conversar com embaixador brasileiro após crise diplomática com Milei

Presidente pode receber Júlio Bitelli em Brasília após reunião com o chanceler Mauro Vieira. Governo considera episódio um dos mais graves da história das relações entre Brasil e Argentina.

A crise diplomática entre Brasil e Argentina continua se aprofundando e mobilizando o Palácio do Planalto. Após os ataques do presidente argentino Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, o governo brasileiro passou a tratar o episódio como uma prioridade da política externa. Agora, Lula avalia receber em Brasília o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para discutir os impactos da escalada de tensão entre os dois países.

A iniciativa ocorre em meio à avaliação de que as declarações de Milei ultrapassaram os limites da diplomacia e abriram uma crise sem precedentes recentes entre duas nações que mantêm uma das mais importantes parcerias políticas e econômicas da América do Sul.

Embaixador será ouvido pelo Itamaraty

Antes de um possível encontro com o presidente da República, Júlio Bitelli deverá se reunir, na quarta-feira (29), com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

Na reunião, o diplomata apresentará uma análise detalhada sobre os desdobramentos da crise e os reflexos das declarações do presidente argentino nas relações entre Brasília e Buenos Aires.

Após essa conversa, Lula decidirá se também receberá pessoalmente o embaixador para discutir os próximos passos da diplomacia brasileira.

Convocação teve autorização de Lula

A decisão de chamar Júlio Bitelli ao Brasil partiu do chanceler Mauro Vieira e contou com o aval do presidente da República.

Segundo fontes da diplomacia, o ministro entrou em contato com Lula logo após desembarcar no Brasil, na manhã de domingo (27), depois de retornar de uma viagem oficial às Filipinas.

Durante a conversa por telefone, o presidente autorizou a estratégia proposta pelo Itamaraty para acompanhar de perto os desdobramentos da crise diplomática.

Diferentemente do que ocorreu em 2024, quando Bitelli foi consultado em Brasília em um procedimento considerado rotineiro, desta vez o retorno do embaixador é tratado pelo governo como uma convocação motivada pela gravidade do episódio.

Governo considera crise inédita

Nos bastidores do Palácio do Planalto e do Itamaraty, a avaliação é de que este é um dos momentos mais delicados das relações entre Brasil e Argentina nas últimas décadas.

Integrantes do governo classificam o episódio como inédito ao longo dos 203 anos de relações diplomáticas entre os dois países, sobretudo porque as críticas partiram de um chefe de Estado estrangeiro durante um evento político realizado em território brasileiro.

As declarações de Javier Milei ocorreram durante a convenção do PL que oficializou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro, no último sábado (25).

Itamaraty reagiu com nota oficial

Após receber o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, o Ministério das Relações Exteriores divulgou uma nota de forte reprovação às declarações do presidente argentino.

No comunicado, o Itamaraty afirmou que não há precedentes para que um chefe de Estado estrangeiro utilize território brasileiro para dirigir ofensas ao presidente da República, às instituições democráticas, ao Poder Judiciário e ao povo brasileiro.

A nota também destacou que o episódio é especialmente lamentável por envolver um país que mantém mais de dois séculos de amizade, cooperação e uma intensa relação comercial com o Brasil.

Enquanto os canais diplomáticos permanecem abertos, a expectativa é de que os próximos dias sejam decisivos para medir os impactos dessa crise. Mais do que um impasse entre dois presidentes, o momento coloca à prova a capacidade de diálogo entre dois países historicamente parceiros, cuja cooperação tem papel fundamental para a estabilidade política e econômica da América do Sul.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Ricardo Stuckert/PR

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