Pré-candidato do PL afirma que decisão do STF busca impedir manifestação de apoio de Jair Bolsonaro à sua candidatura. Alexandre de Moraes vê indícios de descumprimento de medidas cautelares e determina investigação sobre possível propaganda eleitoral fora do período permitido.
A disputa pela Presidência da República ganhou mais um capítulo de forte tensão entre política e Justiça. O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato ao Palácio do Planalto, reagiu publicamente à decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que proibiu suas visitas ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, por 90 dias. Em tom de crítica, o parlamentar afirmou que a medida representa uma tentativa de interferência no processo eleitoral e de impedir que Bolsonaro manifeste apoio à sua candidatura.
O episódio ganhou novos desdobramentos após Moraes determinar o envio do caso ao Ministério Público Eleitoral (MPE) para apurar se Flávio cometeu propaganda eleitoral antecipada ao divulgar nas redes sociais uma carta escrita pelo ex-presidente. Para o ministro, a publicação extrapola os limites das medidas cautelares impostas a Bolsonaro e pode configurar promoção eleitoral antes do período permitido pela legislação.
Flávio afirma que carta foi o quinto recado público do pai
Durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais, Flávio Bolsonaro afirmou que a carta divulgada nos últimos dias foi apenas a quinta manifestação pública escrita por Jair Bolsonaro desde que o ex-presidente passou a cumprir medidas cautelares determinadas pelo STF.
Segundo o senador, as quatro mensagens anteriores foram divulgadas sem qualquer contestação judicial. Ele lembrou que a primeira carta, publicada em dezembro de 2025, oficializou sua indicação como pré-candidato à Presidência da República. Outras mensagens, segundo Flávio, foram divulgadas por Michelle Bolsonaro em fevereiro deste ano, em homenagem ao aniversário de casamento do casal, outra em defesa da ex-primeira-dama diante de críticas nas redes sociais e uma quarta relacionada ao cenário político de Mato Grosso do Sul.
Ao questionar a decisão de Moraes, Flávio afirmou que não vê diferença entre publicar a carta em suas redes sociais ou permitir que o conteúdo seja reproduzido por veículos de comunicação.
“Foi a quinta vez que ele escreveu uma carta. E por que desta vez ele resolve questionar que eu estaria descumprindo alguma ordem judicial?”, declarou durante a transmissão.
Senador acusa STF de interferência eleitoral
Na mesma transmissão, Flávio elevou o tom das críticas ao Supremo Tribunal Federal.
Segundo ele, Alexandre de Moraes estaria tentando impedir que Jair Bolsonaro manifeste apoio político ao filho durante a pré-campanha presidencial.
“O que eu percebo é que Alexandre de Moraes quer interferir nas eleições. Quer, obviamente, que eu não seja candidato. Ele sabe da força que meu pai ainda tem, sabe da importância de uma manifestação dele a meu favor e quer impedir que isso aconteça”, afirmou.
O senador também disse acreditar que a suspensão das visitas retira uma das poucas formas de comunicação do ex-presidente com seus apoiadores e afirmou temer que novas medidas mais severas possam ser adotadas contra Bolsonaro.
Comparação com Lula e atuação como advogado
Durante a transmissão, Flávio comparou a situação do pai ao período em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve preso entre 2018 e 2019.
Segundo ele, Lula pôde conceder entrevistas, receber visitas frequentes e manter articulações políticas durante o cumprimento da pena, enquanto Bolsonaro estaria sendo impedido de exercer direitos semelhantes. O senador citou, como exemplo, a entrevista concedida pelo petista aos jornais Folha de S.Paulo e El País, autorizada pelo STF em 2019.
Flávio também destacou que integra a equipe de defesa jurídica do ex-presidente e informou ter acionado o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para defender suas prerrogativas profissionais.
“Quer me deixar incomunicável com o próprio pai já é um absurdo. E não vai poder impedir que um advogado converse com o seu cliente, ainda que seja o advogado filho e o cliente seja o seu próprio pai”, afirmou.
Moraes vê indícios de propaganda eleitoral antecipada
Na decisão que suspendeu as visitas de Flávio Bolsonaro ao pai, Alexandre de Moraes também determinou o envio do caso ao Ministério Público Eleitoral para apurar eventual prática de propaganda antecipada.
Segundo o ministro, os vídeos publicados no Instagram e no YouTube, nos quais o senador lê a carta manuscrita de Jair Bolsonaro, extrapolam uma simples divulgação de documento e representam um ato de promoção política antes do período eleitoral.
Para Moraes, o conteúdo da carta contém expressões que equivalem a um pedido explícito de voto. No texto, Bolsonaro pede que seus apoiadores deixem divergências de lado e se empenhem em favor da pré-candidatura do filho, a quem classifica como a “melhor opção” para o Brasil.
Além disso, o ministro determinou prazo de 48 horas para que a defesa de Jair Bolsonaro esclareça se o ex-presidente tinha conhecimento de que a carta seria divulgada nas redes sociais.
Decisão amplia tensão política
Na mesma decisão, Moraes concluiu que Flávio utilizou o direito de visita para obter um documento que posteriormente seria divulgado nas redes sociais, o que, segundo o ministro, caracteriza desvio de finalidade e descumprimento das medidas cautelares impostas ao ex-presidente.
O magistrado também apontou que situação semelhante já havia ocorrido anteriormente, circunstância que pesou na manutenção das restrições impostas a Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar após condenação a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Enquanto o Supremo trata o caso como possível descumprimento de decisões judiciais e eventual propaganda eleitoral antecipada, a oposição enxerga uma tentativa de limitar a atuação política de Jair Bolsonaro e de seu principal herdeiro eleitoral. O episódio amplia a tensão entre Judiciário e oposição e demonstra que, a poucos meses das eleições, cada decisão judicial tende a repercutir muito além dos tribunais, influenciando o ambiente político e alimentando uma disputa que promete permanecer no centro do debate nacional.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Reprodução













