Especialistas avaliam que aplicação da medida permanece no campo político, enquanto governo concentra esforços para reduzir prejuízos ao setor produtivo e ampliar mercados para exportação.
A crise comercial entre Brasil e Estados Unidos continua produzindo reflexos que vão muito além das tarifas impostas aos produtos brasileiros. Enquanto cresce a pressão por uma resposta firme do governo federal, a chamada Lei da Reciprocidade, apontada inicialmente como principal reação ao tarifaço norte-americano, permanece sem previsão para sair do papel. O cenário evidencia o delicado equilíbrio entre defender os interesses nacionais e evitar que o conflito comercial provoque prejuízos ainda maiores para a economia brasileira.
No cenário atual, o momento exige cautela. Embora a legislação permita que o Brasil adote medidas equivalentes contra países que imponham barreiras comerciais, a tendência, neste momento, é que a reciprocidade permaneça como instrumento de pressão política, enquanto o governo tenta preservar o diálogo diplomático com Washington.
Resposta ainda não tem data para acontecer
Segundo Larissa Rodrigues, uma eventual retaliação ao governo norte-americano pode ampliar os impactos negativos para o próprio Brasil.
A analista afirmou que, neste momento, não existe expectativa de que a Lei da Reciprocidade seja efetivamente aplicada, justamente pelo risco de agravar as tensões comerciais entre os dois países.
Para ela, a discussão deixou de ser exclusivamente econômica e passou a ocupar espaço no debate político.
“O discurso hoje é muito mais voltado para a defesa da soberania nacional”, observou a analista, ressaltando que tanto as decisões dos Estados Unidos quanto as reações do governo brasileiro e da oposição vêm sendo utilizadas dentro do ambiente político.
Governo prioriza apoio aos setores afetados
Enquanto adia uma possível retaliação, o governo federal concentra esforços em reduzir os prejuízos provocados pelo aumento das tarifas.
Entre as medidas estudadas estão a abertura de novos mercados para os produtos brasileiros e a criação de mecanismos de apoio financeiro às empresas mais afetadas.
Segundo Larissa Rodrigues, o governo também busca recursos, mesmo diante das limitações orçamentárias, para auxiliar os setores que sofrerão maior impacto com a nova política tarifária norte-americana.
Exceções aliviam parte das perdas
Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que aproximadamente 4 mil produtos brasileiros foram atingidos pela sobretaxa imposta pelos Estados Unidos.
Por outro lado, uma lista ampliada de exceções beneficiou pelo menos 429 segmentos, reduzindo parte dos impactos sobre as exportações nacionais.
A estimativa da entidade é de que essas exceções evitarão perdas de aproximadamente US$ 2,3 bilhões.
Ainda assim, desde a primeira sobretaxa de 10%, os prejuízos acumulados para o comércio brasileiro já alcançam cerca de US$ 7 bilhões.
O próprio Palácio do Planalto calcula que os produtos que ficaram fora da lista de exceções poderão registrar perdas entre R$ 5 bilhões e R$ 7 bilhões.
Madeira e minerais estão entre os mais afetados
Dois segmentos concentram as maiores preocupações do setor produtivo.
A indústria madeireira, responsável pela exportação de itens como molduras e portas de emergência para o mercado americano, pode sofrer uma redução de aproximadamente 83% no volume exportado.
Já o setor de minerais não metálicos, que reúne produtos como granito, azulejos, telhas, tijolos, lajes e materiais utilizados na construção civil, deverá registrar queda de cerca de 56% nas exportações.
Diante desse cenário, representantes desses setores trabalham para ampliar a lista de exceções ou obter apoio do governo federal enquanto as negociações diplomáticas seguem em andamento.
Mais do que uma disputa comercial entre duas nações, o impasse coloca à prova a capacidade do Brasil de proteger sua economia sem ampliar um conflito que pode afetar empresas, empregos e investimentos. Enquanto a diplomacia busca construir uma saída negociada, milhares de produtores e trabalhadores aguardam uma solução capaz de preservar mercados, reduzir perdas e garantir estabilidade para um dos principais parceiros comerciais do país.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Reprodução/Instagram













