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PF detalha relação entre Jaques Wagner e executivos do Banco Master em investigação no STF

Relatórios da Polícia Federal apontam contatos frequentes, encontros, viagens e supostas vantagens indevidas envolvendo o senador. Defesa ainda poderá apresentar esclarecimentos ao longo da investigação.

Nos bastidores da política, relações de confiança e articulações institucionais fazem parte da rotina. No entanto, quando esses vínculos passam a integrar investigações sobre possíveis favorecimentos e corrupção, o caso ganha outra dimensão e coloca sob os holofotes a necessidade de transparência e responsabilidade na atuação dos agentes públicos.

É nesse cenário que a Polícia Federal apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma série de relatórios que detalham a relação entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e executivos ligados ao Banco Master. Os documentos, tornados públicos pelo ministro André Mendonça na quinta-feira (30), reúnem elementos que, segundo a corporação, apontam uma relação de proximidade pessoal e interlocução política entre o parlamentar e integrantes da instituição financeira.

Investigação aponta contatos frequentes e possível influência política

De acordo com a Polícia Federal, Jaques Wagner mantinha uma relação considerada de confiança com Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, conhecido como “Guga”. Segundo os investigadores, essa proximidade também aproximou o senador do ex-controlador da instituição, Daniel Vorcaro, criando canais para tratar de assuntos de interesse do banco.

Os levantamentos indicam que Wagner e Augusto Lima trocaram 74 ligações telefônicas entre novembro de 2023 e maio de 2025, acumulando aproximadamente cinco horas e meia de conversas.

A investigação sustenta que há indícios de que o senador possa ter recebido vantagens econômicas em troca de atuação parlamentar favorável a interesses do Banco Master. Entre os fatos apurados está a negociação envolvendo a compra de um apartamento avaliado em cerca de R$ 2,5 milhões, operação que, segundo a PF, teria seguido modelo semelhante ao identificado em outras aquisições investigadas no âmbito da Operação Compliance Zero.

Celular monitorado antes da operação

Antes da deflagração da nona fase da Operação Compliance Zero, realizada em 18 de junho, o ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a acessar registros telefônicos e monitorar, durante dez dias, a localização aproximada do celular de Jaques Wagner por meio das antenas das operadoras.

A autorização contemplava acesso ao histórico de chamadas, mensagens SMS sem conteúdo, identificação dos aparelhos utilizados, conexões de internet e registros das estações de telefonia. O magistrado, porém, não autorizou interceptação telefônica nem acesso ao conteúdo das conversas.

Na decisão, Mendonça também mencionou preocupação com um possível vazamento da investigação após receber, no mesmo dia em que a PF solicitou medidas cautelares, um pedido de audiência feito por um dos investigados.

Mensagens revelam relação de proximidade

Os relatórios descrevem como “longa e duradoura” a relação entre Jaques Wagner e Augusto Lima.

Segundo a PF, mensagens extraídas dos celulares mostram encontros entre as famílias, viagens e demonstrações de amizade. Um dos episódios citados ocorreu em outubro de 2023, quando o senador e sua esposa aceitaram um convite para passar um fim de semana na chamada Ilha da Paixão, propriedade então vinculada a Augusto Lima. Conforme a investigação, o deslocamento teria ocorrido em uma aeronave ligada ao empresário.

Após a viagem, mensagens trocadas entre os dois núcleos familiares continham manifestações de carinho que, para a Polícia Federal, reforçam a existência de uma relação de confiança além do ambiente político.

Os investigadores também encontraram uma lista de presentes de fim de ano elaborada pela secretária de Augusto Lima, na qual figuravam autoridades como Jaques Wagner, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, o ministro Rui Costa, o prefeito de Salvador, Bruno Reis, além de ACM Neto e Antônio de Rueda. Em seguida, foram identificadas listas de vinhos de alto valor e embalagens destinadas ao senador.

Banco Master acompanhava articulações políticas

A Polícia Federal afirma que Augusto Lima mantinha Jaques Wagner constantemente atualizado sobre movimentações envolvendo o Banco Master.

Entre as mensagens analisadas estão informações sobre mudanças societárias, melhora da classificação de risco da instituição, negociações com o Banco Regional de Brasília (BRB) e assuntos em tramitação no Senado que poderiam impactar o banco.

Segundo os investigadores, o senador reagia às mensagens utilizando emojis como “joinha” e “mãos em oração”, comportamento que a corporação descreve como parte de um padrão recorrente de comunicação.

Reuniões no gabinete e suposta “Emenda Master”

Os documentos também relatam encontros entre Jaques Wagner e Augusto Lima realizados no gabinete do senador.

Em uma das conversas, Wagner teria sugerido que uma reunião ocorresse no gabinete por ser um ambiente “mais protegido e discreto”, orientando inclusive sobre uma forma de acesso que evitasse a identificação formal dos visitantes.

Na mesma conversa aparece o nome “Messias”, que a Polícia Federal entende poder ser uma referência ao advogado-geral da União, Jorge Messias. Procurado, ele negou qualquer participação e afirmou nunca ter participado de reunião com Augusto Lima no gabinete do senador.

Outro ponto abordado pela investigação é a chamada “Emenda Master”, relacionada à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 63/2023, que propunha ampliar para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Segundo a PF, mensagens indicariam que Jaques Wagner acompanhava diretamente a tramitação da proposta e era visto por Daniel Vorcaro como um aliado político dentro do Congresso Nacional.

Voos, ingressos e apartamento estão entre as vantagens investigadas

Entre as supostas vantagens analisadas pela Polícia Federal estão o uso de aeronaves particulares, presentes, ingressos para eventos e a negociação de um apartamento em Salvador.

Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro mostram pedidos de discrição relacionados ao uso de uma aeronave que, segundo a investigação, poderia ter transportado Jaques Wagner.

Também foram identificadas tratativas para aquisição de ingressos para um show da cantora Taylor Swift. Conforme a PF, os bilhetes, que somaram mais de R$ 63 mil, teriam beneficiado familiares do senador e pessoas próximas.

Já em relação ao apartamento localizado no empreendimento Poème Horto, em Salvador, a Polícia Federal afirma que Wagner encaminhou a Augusto Lima informações sobre a unidade desejada, incluindo contato do vendedor e valor do imóvel. A partir daí, operadores financeiros ligados ao Banco Master teriam iniciado uma estrutura para viabilizar a aquisição por meio de fundos e empresas interpostas.

Segundo a investigação, as negociações envolvendo o imóvel continuaram mesmo após a prisão de Daniel Vorcaro, ocorrida em novembro de 2025.

As informações apresentadas fazem parte da investigação conduzida pela Polícia Federal e ainda serão analisadas pela Justiça. Até a conclusão do processo, prevalece o princípio da presunção de inocência, garantindo aos investigados o direito ao contraditório e à ampla defesa. O desfecho do caso dependerá da produção de provas e das decisões que vierem a ser tomadas no âmbito do Supremo Tribunal Federal.

Texto: Daniela Casstelo Branco

Foto: Divlgação/CNN Brasil

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