Tremor atingiu a principal região cafeeira do país, derrubou prédios, deixou pacientes presos em hospital, provocou saques e levou cidades a decretarem toque de recolher; número de vítimas pode aumentar durante as buscas.
A Colômbia amanheceu nesta terça-feira (11) diante de uma das maiores tragédias naturais de sua história recente. O terremoto de magnitude 7,4 que atingiu o país na manhã de segunda-feira (10) deixou pelo menos 175 mortos nas principais cidades afetadas, além de centenas de feridos, pessoas desaparecidas e vítimas ainda presas sob os escombros. Enquanto famílias procuram por parentes e equipes de emergência trabalham sem descanso, o país tenta dimensionar uma destruição que ainda pode revelar novos capítulos nas próximas horas.
A Associação Colombiana de Capitais, Asocapitales, informou inicialmente 165 mortes em seu balanço com corte às 5h30 desta terça-feira, mas a atualização feita posteriormente pela Prefeitura de Cali acrescentou outras 10 vítimas, elevando o número total para 175 mortos. O levantamento da associação apontava 85 mortes em Cali, 55 em Pereira, nove em Quibdó e cinco em Manizales. O grupo participou de reuniões com o governo nacional para organizar a resposta à emergência.
Resgate em meio aos escombros
Os trabalhos de resgate avançaram durante toda a noite no oeste da Colômbia. Bombeiros, policiais, militares, equipes médicas e voluntários se uniram em uma corrida contra o tempo, utilizando máquinas pesadas e, em alguns momentos, as próprias mãos para tentar encontrar sobreviventes entre concreto, aço retorcido e estruturas que desabaram.
O terremoto atingiu principalmente a região cafeeira colombiana e provocou o colapso de edifícios de vários andares em cidades como Cali e Pereira. Em Manizales, uma das torres de uma catedral histórica sofreu rachaduras. Em Pereira, uma das áreas mais atingidas, quarteirões residenciais inteiros foram transformados em montanhas de concreto e ferragens.
Em Cali, cidade com aproximadamente 2,2 milhões de habitantes, a situação ganhou proporções ainda mais dramáticas. A atualização da prefeitura, com corte às 6h30, apontou 95 mortos, 949 feridos e 239 pessoas presas nos escombros.
Hospital desaba e pacientes são atendidos na rua
Um dos episódios mais delicados ocorreu no Hospital Universitário de Cali. Cerca de 30% da estrutura da unidade desabou, atingindo três andares onde funcionavam os setores de pediatria, clínica médica e parte da unidade neonatal. As autoridades acreditam que pacientes tenham ficado presos sob os destroços.
O diretor do hospital, Irne Torres Castro, informou que aproximadamente 600 pessoas precisaram ser atendidas em uma rua tomada por escombros. Imagens divulgadas nas redes sociais mostraram profissionais de saúde e paramédicos retirando pacientes em macas, enquanto outros eram encaminhados para diferentes centros médicos.
Pelo menos quatro pessoas já haviam sido resgatadas dos escombros, segundo o governo de Cali. O Hospital Universitário está entre pelo menos sete unidades de saúde da cidade que precisaram ser fechadas e esvaziadas por causa dos danos estruturais.
A cena de pacientes sendo tratados ao ar livre, cercados por destroços, expõe de forma dolorosa a dimensão da tragédia. Em meio ao caos, profissionais de saúde continuaram trabalhando para salvar vidas, muitas vezes sem saber se seus próprios colegas ou familiares estavam seguros.
Segurança reforçada após relatos de saques
Além da emergência humanitária, as autoridades colombianas precisaram lidar com problemas de segurança. O recém-empossado presidente Abelardo de la Espriella informou que foram registrados episódios de roubos e alterações da ordem pública em algumas das áreas atingidas.
Diante dos relatos de saques, o governo anunciou o envio de mil integrantes das forças de segurança para reforçar a proteção nas cidades afetadas. Cali e Pereira também decretaram toque de recolher durante a noite.
Em Cali, a medida começou às 20h de segunda-feira, no horário local, e terminou às 6h desta terça-feira, equivalente às 22h às 8h no horário de Brasília. O prefeito Alejandro Eder afirmou que a decisão foi tomada diante de ameaças de saques, mas também para garantir condições para que as equipes pudessem continuar os trabalhos de resgate.
“Essas primeiras 48 horas são críticas”, afirmou a prefeitura ao pedir que os moradores permanecessem em casa, respeitassem o toque de recolher e mantivessem a solidariedade. Pereira também adotou medidas semelhantes e implantou o “Dia sem Carro” até o fim desta terça-feira.
Aeroportos afetados e alerta vermelho
A força do terremoto também atingiu a infraestrutura de transporte. Segundo a Asocapitales, cinco capitais colombianas estão em alerta vermelho, 86 edifícios desabaram e sete aeroportos tiveram as operações suspensas.
Vídeos registrados durante o tremor mostram o aeroporto de Pereira balançando violentamente, enquanto partes do teto desabavam e pessoas procuravam abrigo. O epicentro foi localizado em San José del Palmar, a aproximadamente 240 quilômetros de Bogotá.
O abalo também foi sentido com força na capital colombiana, onde alarmes dispararam e moradores deixaram suas casas e foram para as ruas por precaução.
A dimensão da destruição trouxe à memória o terremoto de 1999, que devastou a mesma região cafeeira e deixou mais de mil mortos. O desastre desta segunda-feira é considerado um dos terremotos mais fortes a atingir o país em décadas.
Solidariedade internacional
Diante da dimensão da tragédia, a Colômbia também começou a receber manifestações de solidariedade de outros países. Os Estados Unidos anunciaram US$ 15,5 milhões em recursos destinados a ações de abrigo, alimentação, proteção e avaliação dos impactos provocados pelo terremoto.
Enquanto isso, dentro do país, a prioridade continua sendo uma só: encontrar sobreviventes. Cada minuto é precioso para as equipes que seguem removendo pedras, concreto e ferragens na esperança de ouvir uma voz, encontrar um movimento ou resgatar mais uma vida.
A Colômbia agora enfrenta não apenas a dor das mortes, mas também a incerteza de centenas de famílias que ainda aguardam notícias de seus entes queridos. Em meio a prédios destruídos, hospitais improvisados nas ruas e cidades inteiras tentando se reerguer, a solidariedade se transforma em uma das poucas certezas. E, enquanto as mãos continuam cavando os escombros, permanece viva a esperança de que, mesmo diante de uma tragédia capaz de mudar para sempre a história de tantas famílias, ainda seja possível encontrar vidas onde tudo parece ter sido perdido.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/G1 -Globo













