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Vorcaro antecipou viagem a Dubai após consultar Moraes antes de ser preso

Documentos mostram que ex-dono do Banco Master mudou o itinerário para deixar o país um dia antes do previsto; horas antes, havia perguntado ao ministro Alexandre de Moraes se precisava estar fora do Brasil.

A sequência de acontecimentos que terminou com a prisão de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, ganhou novos detalhes e torna ainda mais delicada a relação entre o banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Documentos analisados pela Polícia Federal mostram que Vorcaro antecipou em um dia a viagem que faria para Dubai, depois de ter consultado Moraes sobre a necessidade de deixar o país.

O planejamento apresentado inicialmente pela defesa previa que o banqueiro deixaria o Brasil na noite de 18 de novembro de 2025, com saída do Aeroporto Internacional de Guarulhos, escala em Milão e chegada a Dubai no dia 20. Naquele sábado, 15 de novembro, porém, Vorcaro havia enviado mensagem ao ministro perguntando: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Dois dias depois, em 17 de novembro, ele acabou preso pela PF quando tentava embarcar.

Mudança de última hora chamou atenção da PF

Segundo documentos obtidos pelo UOL, na manhã de 17 de novembro, poucas horas antes de ser detido, Vorcaro comunicou a dois servidores do Banco Central que havia alterado toda a programação da viagem.

Em uma mensagem enviada às 6h48, ele afirmou que investidores estrangeiros não conseguiriam participar de uma reunião prevista para aquela quarta-feira e que, por isso, havia sido solicitado a antecipar a viagem para tentar concluir assinaturas relacionadas à negociação. “Desta forma estou mudando a logística toda da transação”, escreveu.

A versão apresentada pelo banqueiro é que a alteração ocorreu por causa de investidores estrangeiros envolvidos nas negociações para a venda do Banco Master. Os documentos, no entanto, mostram que a mudança ocorreu depois de uma série de conversas com Moraes sobre a possibilidade de ele deixar o país.

No mesmo dia, Vorcaro recebeu a confirmação de uma reserva no Four Seasons, em Dubai, com a chegada antecipada do dia 20 para o dia 18 de novembro. O plano de voo utilizado na tentativa de embarque em 17 de novembro não aparece entre os documentos apresentados pela defesa.

Mensagem a Moraes ocorreu antes da mudança

A cronologia chama atenção porque, antes da alteração do itinerário, Vorcaro havia procurado Moraes para saber se deveria estar fora do Brasil na segunda-feira.

As mensagens integram o material apreendido pela PF no celular do banqueiro e tiveram o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça. O relatório registra ainda que Vorcaro fez outros questionamentos ao ministro sobre a investigação, incluindo referências ao juiz responsável pelo caso e ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

No dia seguinte, 16 de novembro, Vorcaro voltou a questionar Moraes sobre a possibilidade de ser preso na manhã seguinte. Já no dia 17, horas antes de ser detido, enviou nova mensagem perguntando se o ministro havia conseguido alguma informação ou “bloquear” a medida.

A PF considera que a sequência das mensagens é relevante para entender o nível de informação que Vorcaro possuía sobre o avanço das investigações antes de sua prisão.

Prisão ocorreu no aeroporto

Vorcaro foi preso na noite de 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava deixar o país em um jato particular. A prisão ocorreu horas depois da mudança de seu itinerário.

Na manhã seguinte, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, que investigou suspeitas relacionadas ao Banco Master. No mesmo período, o Banco Central decretou a liquidação da instituição.

A defesa de Vorcaro sustenta que a viagem tinha como objetivo tratar da negociação do banco com investidores estrangeiros e afirma que a antecipação ocorreu por causa da necessidade de formalizar a operação nos Emirados Árabes Unidos. Moraes e a defesa do banqueiro foram procurados sobre os novos documentos e, até a publicação das informações, não haviam se manifestado.

Relação com servidores do Banco Central

As mensagens sobre a mudança do voo foram enviadas em um grupo de WhatsApp que reunia Vorcaro e servidores do Banco Central, entre eles Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária, e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto da área.

Segundo a investigação, os dois mantinham contato frequente com o banqueiro e participaram de discussões e revisões de documentos relacionados ao Banco Master. Posteriormente, ambos foram afastados dos cargos sob suspeita de terem recebido vantagens para auxiliar Vorcaro. As defesas contestam as acusações.

Contratos milionários entram no foco da investigação

A antecipação da viagem é apenas uma parte do conjunto de informações reunidas pela PF sobre a relação entre Vorcaro e pessoas próximas ao ministro Alexandre de Moraes.

Entre os documentos analisados está um contrato firmado em janeiro de 2024 entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O acordo previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, totalizando R$ 108 milhões. Considerados os tributos previstos no próprio contrato, o valor bruto poderia chegar a aproximadamente R$ 131,3 milhões.

A PF identificou ainda metadados indicando que arquivos relacionados à negociação foram modificados por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. Segundo a investigação, isso seria um indício de que o ministro teve participação na análise ou elaboração dos documentos.

O escritório, por sua vez, afirma que Moraes analisou o contrato a pedido do setor de compliance para verificar eventual impedimento legal. A defesa sustenta que não havia previsão de atuação do escritório no STF em processos relacionados ao Banco Master e que o ministro nunca julgou causa envolvendo o banco.

Segundo contrato envolvia avião e helicóptero

A investigação encontrou ainda um segundo contrato, de maio de 2025, entre o escritório Barci de Moraes e a empresa Viking Participações, ligada a Vorcaro. O acordo previa limite de até R$ 50 milhões em honorários ao longo de três anos.

Nas tratativas, aparecem referências a cotas de um avião Legacy 650 e de um helicóptero EC 155 B1. Documentos analisados pela PF apontam valores de aproximadamente US$ 5,51 milhões para a cota do avião e US$ 1,33 milhão para a do helicóptero.

Também há registros de pagamentos e cobranças relacionados ao escritório. Em julho de 2025, por exemplo, uma funcionária informou a Vorcaro sobre uma cobrança de R$ 22,8 milhões referente a uma fatura vinculada à Viking.

Encontros e mensagens ampliam a pressão sobre o caso

O relatório da PF também reúne registros de encontros e conversas entre Vorcaro e Moraes ao longo de 2024 e 2025. O número atribuído ao ministro estava salvo no celular do banqueiro em diferentes contatos, e a investigação identificou mensagens enviadas por Vorcaro ao telefone associado a Moraes.

Um aspecto considerado especialmente sensível pelos investigadores é o fato de que muitas das mensagens eram produzidas no aplicativo de notas do celular, transformadas em capturas de tela e encaminhadas pelo WhatsApp. As respostas atribuídas ao ministro não foram integralmente recuperadas pela PF, o que limita a compreensão completa das conversas.

É justamente nesse ponto que a investigação ganha uma dimensão ainda maior. Os documentos revelam uma proximidade entre um banqueiro que estava sob crescente pressão das autoridades e integrantes do sistema de Justiça, mas ainda cabe às investigações estabelecer se houve efetivamente troca indevida de informações, favorecimento ou qualquer outra irregularidade.

Caso coloca instituições sob forte pressão

A antecipação da viagem de Vorcaro, somada à mensagem em que ele questiona Moraes sobre a necessidade de estar fora do país, acrescenta uma nova peça a uma investigação que já provocou forte crise institucional. A prisão ocorreu apenas dois dias depois da mensagem e um dia antes da deflagração da Operação Compliance Zero, embora os documentos não permitam, por si só, afirmar que a alteração do voo tenha sido causada diretamente pela conversa com o ministro.

O que está diante das autoridades agora é um quebra-cabeça de mensagens, contratos, encontros e movimentações financeiras que precisa ser analisado com rigor e sem conclusões antecipadas. Mais do que o destino de Daniel Vorcaro ou os nomes que aparecem nos documentos, o caso toca em uma questão que interessa a toda a sociedade: quando relações entre dinheiro, poder e instituições se aproximam demais, a transparência deixa de ser apenas desejável e passa a ser indispensável para preservar a confiança na Justiça e na democracia.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/STF

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