Projeções da CNN apontam vitória do Partido Democrata na Câmara e no Senado, em uma das mais expressivas mudanças de força política dos últimos anos; resultado amplia o poder de fiscalização sobre o governo republicano e acende um alerta para Donald Trump.
A disputa nas urnas nos Estados Unidos terminou com um resultado capaz de mudar os rumos da política americana nos próximos dois anos. Em uma demonstração de insatisfação de parte do eleitorado com o governo de Donald Trump, o Partido Democrata conquistou a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, segundo projeções eleitorais da CNN. A vitória representa uma importante virada no equilíbrio de forças em Washington e coloca o presidente diante de um Congresso com maior disposição para fiscalizar suas decisões.
Os americanos foram às urnas nesta terça-feira (3) para as eleições de meio de mandato, conhecidas como Midterms, que renovam todas as cadeiras da Câmara dos Representantes, um terço do Senado e diversos cargos estaduais. Neste ano, também estavam em disputa os governos de 36 estados, além de outras funções locais.
Democratas avançam em territórios historicamente republicanos
O resultado ganhou ainda mais relevância pelo desempenho dos democratas em estados tradicionalmente alinhados ao Partido Republicano. A legenda conseguiu conquistar cadeiras em regiões onde seus candidatos não venciam havia décadas, demonstrando uma mudança significativa no comportamento de parte do eleitorado.
Entre as vitórias mais expressivas estão as conquistas no Texas, na Carolina do Sul e no Kansas. No Texas, James Talarico garantiu uma cadeira no Senado, tornando-se o primeiro democrata eleito pelo estado para a Casa desde 1988. Já no Kansas, Adam Hamilton conquistou uma vaga que não era ocupada por um democrata havia 94 anos.
Na Carolina do Sul, Annie Andrews também venceu a disputa, encerrando quase três décadas de domínio republicano na cadeira. Ao todo, os democratas conseguiram pelo menos sete viradas no Senado e outras 27 na Câmara dos Representantes.
De acordo com as projeções, os democratas alcançaram ao menos 54 cadeiras no Senado, contra 44 dos republicanos, enquanto ainda aguardavam a consolidação dos resultados no Alasca e no Mississippi. Na Câmara, a vantagem também foi expressiva, com pelo menos 231 representantes democratas contra 139 republicanos, conforme a apuração divulgada na manhã desta quarta-feira (4).
Disputa também redesenha governos estaduais
Além da mudança no Congresso, as eleições produziram resultados históricos nas disputas pelos governos estaduais. Dos 36 cargos em jogo, os democratas conquistaram ao menos 17 governos, incluindo cinco estados que estavam sob administração republicana. O partido de Trump ficou com 12, segundo as projeções.
No Texas, Gina Hinojosa foi projetada como vencedora e deverá se tornar a primeira mulher latina a governar o estado, encerrando mais de três décadas de domínio republicano no cargo.
Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms deverá fazer história como a primeira mulher negra eleita governadora dos Estados Unidos. No Novo México, Deb Haaland será a primeira mulher indígena a comandar um governo estadual americano.
Outro resultado de destaque ocorreu na Flórida, onde o republicano Byron Donalds foi projetado como vencedor, tornando-se o primeiro governador negro da história do estado.
Na Califórnia, Xavier Becerra também entrou para a história ao ser projetado como o primeiro latino a governar o estado. Em Ohio, Amy Acton conquistou uma vitória importante para os democratas, tornando-se a primeira mulher eleita governadora e a primeira representante do partido a vencer a disputa desde 2006.
Inflação e guerra no Irã pesaram na avaliação do governo Trump
Mais do que uma disputa legislativa, as Midterms foram interpretadas por especialistas como uma espécie de avaliação popular do governo Donald Trump. A inflação, o custo de vida e, principalmente, o preço dos combustíveis estiveram entre as principais preocupações dos eleitores.
O cenário econômico se somou aos efeitos políticos da guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro e ainda sem um acordo para seu encerramento. O conflito passou a representar outro desafio para a administração republicana, especialmente diante do impacto sobre os preços e da insatisfação de parte da população.
Trump chegou à votação com índices de aprovação em baixa. Uma pesquisa Reuters/Ipsos, divulgada em 26 de outubro, apontava que apenas 32% dos americanos avaliavam positivamente seu governo.
Durante a campanha, o presidente fez questão de associar sua própria imagem à disputa, pedindo aos eleitores que considerassem seu governo na hora de votar. Em setembro, durante uma convenção republicana, chegou a pedir que os apoiadores imaginassem seu nome nas cédulas eleitorais.
Trump parabeniza adversários, mas rejeita derrota como reprovação ao governo
Diante do avanço democrata, Trump afirmou que estava disposto a aceitar os resultados e trabalhar com os adversários políticos. Em entrevista ao jornal The New York Times, declarou que aceitaria o resultado eleitoral, embora tenha deixado aberta a possibilidade de rever sua posição.
Em conversa com a Fox News, o presidente afirmou que não considerava as derrotas republicanas um golpe contra sua administração.
“Não encaro isso como um golpe contra mim”, declarou.
Trump também voltou a defender seu desempenho econômico, afirmando que os dois primeiros anos de sua Presidência haviam sido os melhores da história em termos de economia e realizações. Ao mesmo tempo, reconheceu que os eleitores não aceitaram o impacto imediato da guerra contra o Irã sobre os preços da gasolina.
Questionado sobre sua mensagem aos americanos após a vitória da oposição, o republicano surpreendeu ao parabenizar os adversários.
“Parabéns aos democratas. Eles fizeram um bom trabalho”, afirmou.
O presidente também atribuiu parte das derrotas aos próprios candidatos republicanos que receberam seu apoio, alegando que alguns não conseguiram mobilizar a base eleitoral.
Vitória democrata pode mudar os próximos dois anos em Washington
A conquista das duas casas do Congresso representa uma mudança importante para o governo Trump. Com a maioria legislativa, os democratas passam a ter mais instrumentos políticos para fiscalizar as decisões da administração republicana, ampliar investigações e dificultar a aprovação de determinadas propostas presidenciais.
A mudança de controle das duas casas legislativas em um mesmo ciclo eleitoral é um acontecimento pouco comum na política americana. Segundo o levantamento apresentado pela CNN, isso ocorreu apenas duas vezes nos últimos 50 anos.
O resultado das Midterms deixa um recado que vai além das cadeiras conquistadas: mesmo em um país profundamente dividido, o eleitorado tem o poder de alterar os rumos políticos e impor limites a quem está no comando. Para Donald Trump, a nova composição do Congresso representa um desafio direto à sua capacidade de governar. Para os democratas, abre-se uma oportunidade de recuperar protagonismo e mostrar que a disputa pelo futuro dos Estados Unidos continua longe de terminar.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













