Escalada no Golfo Pérsico já atingiu ao menos sete embarcações, provoca reação nos mercados e aumenta o temor de uma crise internacional ainda maior.
O que acontece no mar já começa a ser sentido muito além das águas do Golfo Pérsico. A sequência de ataques contra petroleiros em meio ao confronto entre Estados Unidos e Irã elevou o nível de tensão na região e trouxe de volta um dos maiores temores do mercado internacional: que a guerra avance para uma fase capaz de ameaçar diretamente o transporte de petróleo e afetar a economia mundial.
Pelo menos sete petroleiros foram atingidos dentro e nos arredores do Golfo Pérsico desde a noite de terça-feira (8), no horário local. A sequência de ataques envolve ações atribuídas às forças americanas e iranianas e ocorre em meio ao aumento das operações militares e da pressão econômica sobre Teerã.
Petróleo ultrapassa US$ 100
O impacto da escalada foi imediato nos mercados. O preço do petróleo chegou a ultrapassar brevemente US$ 100 por barril pela primeira vez desde julho. O Brent, referência internacional, avançou 2,3% antes de reduzir parte dos ganhos.
O movimento mostra como um conflito concentrado em uma região estratégica pode rapidamente alcançar o cotidiano de milhões de pessoas. Qualquer ameaça ao transporte de petróleo pelo Golfo Pérsico ou pelo Estreito de Ormuz aumenta o risco de interrupções no fornecimento e pode pressionar combustíveis, transporte, inflação e custos de produção em diferentes países.
Ataques atingem petroleiros
Na noite de terça-feira, os Estados Unidos atacaram cinco petroleiros iranianos e afundaram um deles, segundo informações divulgadas pelo Comando Central americano, o CENTCOM.
Quatro navios-tanque de petróleo bruto foram atingidos no Golfo de Omã e outro nas proximidades da Ilha de Kharg, um dos principais centros de exportação de petróleo do Irã.
Entre as embarcações atingidas está o M/T Riesco. Imagens divulgadas pelo Exército americano mostram o navio em chamas e posteriormente afundando no Golfo de Omã. De acordo com o CENTCOM, as tripulações foram orientadas a abandonar as embarcações antes dos ataques.
A ação americana ocorreu depois de tentativas iranianas de atingir um navio de guerra dos Estados Unidos. Segundo o CENTCOM, a embarcação conseguiu escapar dos mísseis e continuava realizando patrulhamento na região. Nenhum militar americano teria ficado ferido.
Irã amplia resposta
A reação de Teerã veio com o lançamento de uma série de mísseis contra a Jordânia, país aliado dos Estados Unidos na região.
O Irã afirmou que tinha como alvo a Base Aérea Muwaffaq Salti, uma instalação utilizada pelas forças americanas. Segundo um funcionário dos Estados Unidos ouvido pela CNN, o ataque não conseguiu atingir seu objetivo diante dos sistemas integrados de defesa aérea e antimísseis.
O Exército jordaniano informou que suas defesas interceptaram 20 mísseis balísticos. Dezoito foram destruídos e outros dois caíram em áreas desabitadas.
A escalada, portanto, já não está restrita às forças americanas e iranianas. O risco de envolvimento de países aliados aumenta à medida que instalações militares e rotas comerciais passam a fazer parte do cenário de confronto.
Mais dois petroleiros são atingidos
Nesta quarta-feira (9), outros dois petroleiros foram atingidos por drones no Golfo. Um deles estava próximo à costa de Dubai e o outro navegava em águas territoriais do Iraque.
O Hercules Star, petroleiro de produtos derivados de petróleo com bandeira de Gibraltar, foi atingido enquanto estava ancorado na costa de Dubai. Um tripulante morreu no incidente, segundo a Peninsula, empresa responsável pelo fretamento da embarcação. A companhia não informou a causa da morte.
O Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO) havia informado anteriormente que uma embarcação na mesma região apresentava uma forte inclinação, sinal de que poderia estar fazendo água depois de ser atingida por um “projétil desconhecido”.
Mais ao norte, um petroleiro de bandeira do Panamá foi atingido por uma fonte ainda não identificada em águas iraquianas. O Ministério dos Transportes do Iraque informou que houve danos no casco, mas nenhum tripulante morreu ou ficou ferido.
Até o momento, não houve reivindicação de responsabilidade pelos dois ataques.
Estreito de Ormuz vira ponto de pressão
A preocupação aumenta ainda mais porque o conflito se aproxima de uma das rotas marítimas mais importantes do planeta. O Estreito de Ormuz é uma passagem estratégica para o transporte internacional de petróleo e qualquer restrição ao tráfego na região pode provocar efeitos muito além do Oriente Médio.
A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã já havia advertido tripulações de petroleiros próximas aos portos do Kuwait e do Bahrein, países aliados dos Estados Unidos, para que deixassem imediatamente as embarcações.
Teerã também anunciou a ampliação de sua zona de restrição marítima no Golfo Pérsico. Segundo o porta-voz da Guarda Revolucionária, general Hossein Mohebbi, a nova área partirá aproximadamente da direção de Chabahar, no Golfo de Omã, e avançará por parte do Mar Arábico em direção à rota do Estreito de Ormuz. As coordenadas ainda seriam divulgadas.
Escalada gradual preocupa especialistas
Para o analista Hamidreza Azizi, especialista em Irã do International Crisis Group, a sequência de ataques representa um “padrão de escalada gradual”, com aumento tanto na quantidade quanto na capacidade dos mísseis utilizados pelo Irã contra alvos americanos.
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, também elevou o tom. Durante viagem à Colômbia, afirmou que Washington continuará respondendo caso o Irã tente atacar navios militares americanos.
A mensagem revela que, neste momento, nenhum dos dois lados demonstra disposição para recuar. Ao contrário, cada ataque vem acompanhado de uma resposta, criando um ciclo que pode tornar o conflito progressivamente mais difícil de controlar.
Impacto pode chegar ao consumidor
Além do risco militar, a guerra já produz consequências econômicas. Nos Estados Unidos, o preço médio da gasolina chegou a uma nova máxima em três meses na terça-feira (8), superando US$ 4,15 por galão.
Se a tensão continuar afetando o transporte marítimo e a oferta de petróleo, a pressão poderá se espalhar pelos mercados internacionais. O aumento dos combustíveis costuma atingir toda a cadeia econômica, encarecendo fretes, alimentos, serviços e produtos e dificultando o controle da inflação.
O que começou como uma sucessão de ataques militares agora ganha contornos de uma crise com potencial para atingir rotas comerciais, mercados e governos muito além da região. Cada petroleiro atingido representa não apenas um novo episódio da guerra, mas também um alerta de que o conflito pode estar entrando em uma etapa ainda mais perigosa. No Oriente Médio, a distância entre uma batalha localizada e uma crise internacional pode ser medida por poucos quilômetros de mar e por uma única decisão capaz de incendiar toda uma região.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













