Aliados discutem reforço da defesa aérea de Kiev enquanto ataques russos voltam a atingir a capital; maioria dos novos mísseis Patriot só deve chegar nos próximos anos.
Enquanto a diplomacia tenta encontrar uma saída para uma guerra que já dura anos, a realidade no campo de batalha volta a lembrar que a paz ainda parece distante. A Ucrânia amanheceu nesta terça-feira (8) sob uma nova onda de ataques russos, com mortos, feridos e prédios atingidos em Kiev, justamente no momento em que aliados de Volodymyr Zelensky discutem como ampliar o apoio militar ao país.
Diante desse cenário, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, fez um alerta direto aos países que apoiam a Ucrânia. Durante uma reunião de ministros da Defesa, ele afirmou que os aliados precisam aprofundar o suporte a Kiev para que o país consiga aproveitar as oportunidades que vem criando no conflito e, principalmente, reforçar sua defesa aérea.
Otan alerta para conflito prolongado
Rutte afirmou que os países aliados precisam ampliar seus esforços e classificou o reforço do apoio à Ucrânia como uma necessidade diante da continuidade da guerra.
Na mesma reunião, o chefe de política do Pentágono, Elbridge Colby, afirmou que os governos precisam estar preparados para um conflito prolongado entre Rússia e Ucrânia, mesmo diante das tentativas do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de negociar uma solução duradoura.
Segundo Colby, as necessidades militares da Ucrânia podem continuar pelos próximos meses e anos. Para ele, os aliados também precisam estar preparados para outras possíveis contingências relacionadas ao conflito.
Ucrânia busca mil mísseis Patriot
A necessidade mais urgente de Kiev está concentrada na defesa aérea. O ministro da Defesa ucraniano, Yevhenii Khmara, informou que o país está contratando aproximadamente mil mísseis para os sistemas Patriot, de fabricação norte-americana.
A aquisição conta com apoio de países aliados e recursos obtidos por meio de um empréstimo da União Europeia. O problema é que grande parte dos equipamentos não deverá chegar imediatamente. Segundo o ministro, a maior parte dos mísseis tem entrega prevista apenas para os próximos anos.
Por isso, Khmara pediu que os aliados acelerem o envio de equipamentos e interceptadores. A preocupação é que Kiev continue vulnerável enquanto os estoques atuais de defesa aérea permanecem em níveis considerados críticos.
Kiev volta a ser alvo de ataques
A preocupação ganhou força nesta terça-feira, quando a Rússia lançou uma nova ofensiva aérea contra Kiev, utilizando drones e mísseis.
Duas pessoas morreram e pelo menos outras dez ficaram feridas, segundo o prefeito Vitali Klitschko. Explosões e incêndios foram registrados em diferentes pontos da capital.
Destroços provocaram incêndios em um edifício residencial de cinco andares e em outro prédio de três andares. Ao menos 14 edifícios altos foram danificados, além de um dormitório, uma escola, uma clínica, armazéns e outras estruturas.
O ataque ocorreu depois de uma breve pausa nos bombardeios durante a passagem por Kiev dos enviados de paz do governo norte-americano, Jared Kushner e Steve Witkoff.
Ataques voltaram após visita de negociadores
Kushner e Witkoff estiveram em Kiev no domingo (6), onde se reuniram com o presidente Volodymyr Zelensky. Antes disso, os representantes norte-americanos haviam passado por Moscou para participar de negociações.
Após os encontros, o Kremlin afirmou que não descartava a possibilidade de retomada das negociações envolvendo Rússia, Ucrânia e Estados Unidos.
A retomada dos ataques, porém, provocou uma reação imediata do governo ucraniano. O ministro das Relações Exteriores, Andrii Sybiha, afirmou que o novo bombardeio ocorreu logo depois da saída dos enviados norte-americanos e cobrou maior pressão internacional sobre Moscou.
Sybiha também pediu aos aliados o envio urgente de interceptadores capazes de derrubar mísseis balísticos, diante da redução dos estoques ucranianos.
Rússia diz ter atingido alvos militares
O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que suas forças atingiram alvos militares e logísticos em Kiev e na região ao redor da capital. Moscou também informou ataques contra estruturas no porto de Chornomorsk, no Mar Negro.
A Rússia sustenta que suas operações têm como alvo instalações ligadas à infraestrutura militar e logística ucraniana. Autoridades de Kiev, por outro lado, relatam repetidamente danos a áreas residenciais e estruturas civis durante as ofensivas.
Polônia coloca aeronaves em operação
A intensidade dos ataques também levou a Polônia a adotar medidas preventivas. O país, que integra a Otan e faz fronteira com a Ucrânia, ativou aeronaves para proteger seu espaço aéreo diante do risco de possíveis incursões de mísseis russos.
O aeroporto de Lublin chegou a suspender temporariamente os voos durante as operações militares.
A movimentação mostra como a guerra ultrapassa cada vez mais as fronteiras da Ucrânia e mantém os países vizinhos em estado permanente de alerta.
Conflito também atinge território russo
Enquanto Kiev era novamente bombardeada, drones ucranianos também atingiram a Rússia. Segundo o governador regional, ataques provocaram danos à infraestrutura civil e deixaram pessoas feridas em Saratov, cidade localizada às margens do rio Volga, a aproximadamente 730 quilômetros a sudeste de Moscou.
A região abriga uma importante refinaria de petróleo operada pela estatal Rosneft, além de instalações industriais e militares.
A guerra, que já atravessa seu quarto ano, continua assim entre ataques, negociações e promessas de paz que ainda não conseguiram silenciar as armas. Enquanto líderes discutem estratégias e acordos em salas fechadas, famílias continuam acordando ao som de sirenes e explosões. E talvez seja justamente essa distância entre a diplomacia e a vida de quem está sob as bombas que torna o apelo por uma solução pacífica cada vez mais urgente.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













