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Itamaraty classifica críticas de Milei como ‘inaceitáveis’ e crise diplomática entre Brasil e Argentina se intensifica

Ministro Mauro Vieira recebeu o embaixador argentino em Brasília para manifestar a insatisfação do governo brasileiro após declarações de Javier Milei contra o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes. Embaixador brasileiro segue sem previsão de retorno a Buenos Aires.

As relações entre Brasil e Argentina atravessam um dos momentos mais delicados das últimas décadas. Após as declarações do presidente argentino Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, o governo brasileiro reagiu oficialmente e classificou as manifestações como “inaceitáveis” e sem precedentes na história recente da diplomacia entre os dois países.

A resposta ocorreu na noite de domingo (26), quando o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, recebeu no Palácio Itamaraty o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi. O encontro marcou o primeiro movimento oficial do governo brasileiro diante da crise diplomática desencadeada após a participação de Milei na convenção do PL, que oficializou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro.

Governo brasileiro cobra explicações da Argentina

Durante a reunião, Mauro Vieira transmitiu ao diplomata argentino a avaliação do governo brasileiro sobre as declarações feitas por Milei, consideradas uma interferência indevida e um ataque às instituições nacionais.

Segundo relatos de fontes do governo, Daniel Raimondi ouviu a manifestação do chanceler brasileiro e informou que levaria o posicionamento às autoridades argentinas.

A insatisfação do Brasil também foi motivada pela presença, no evento político realizado no sábado (25), do chanceler argentino Pablo Quirno e do cônsul-geral da Argentina em São Paulo, Luís María Kreckler, diplomata de carreira que já atuou como embaixador em Brasília entre 2012 e 2015.

Pedido de desculpas é considerado improvável

Apesar da manifestação formal do Itamaraty, a expectativa nos bastidores é de que o governo de Javier Milei não apresente um pedido oficial de desculpas.

Segundo fontes ouvidas pela CNN, tanto o presidente argentino quanto integrantes de sua equipe demonstram pouca disposição para rever a postura adotada durante o evento político no Brasil.

Enquanto isso, o embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, permanece em território brasileiro e segue sem previsão de retornar a Buenos Aires, sinalizando que o clima entre os dois governos continua distante de uma normalização.

Crise domina o debate político na Argentina

O episódio ganhou ampla repercussão na imprensa argentina e passou a ocupar espaço de destaque nos principais jornais do país.

De acordo com relatos obtidos pela CNN, especialistas em relações internacionais, analistas políticos e diplomatas argentinos, tanto da ativa quanto aposentados, avaliam que a atitude de Milei rompe uma tradição histórica da diplomacia argentina de manter relações institucionais estáveis com os países vizinhos.

Há ainda a interpretação de que o posicionamento do presidente argentino busca alinhar sua política externa ao discurso adotado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação ao cenário político brasileiro.

Impactos podem atingir a relação econômica

Embora o ambiente diplomático seja considerado o mais tenso entre Brasil e Argentina em aproximadamente meio século, a avaliação predominante entre especialistas é que a crise não deverá evoluir para medidas extremas, como a retirada definitiva dos embaixadores.

Ainda assim, o desgaste pode produzir reflexos nas relações comerciais e econômicas entre os dois países, que mantêm uma das maiores parcerias estratégicas da América do Sul.

Em um momento de forte polarização política na região, o episódio evidencia como declarações de líderes nacionais podem ultrapassar o campo do discurso e provocar impactos diretos na diplomacia. Mesmo sem perspectivas imediatas de uma escalada institucional mais grave, o desafio agora será reconstruir o diálogo entre dois países cuja história mostra que a cooperação sempre foi mais produtiva do que o confronto.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Estadão Conteúdo

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