Presidente ouviu relatos sobre a tensão dentro da Corte após divulgação de mensagens entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A crise que voltou a estremecer os bastidores do Supremo Tribunal Federal (STF) chegou ao Palácio do Planalto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) procurou ministros da Corte nesta terça-feira (1º) para ouvir relatos sobre a tensão interna provocada pela divulgação de mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A movimentação ocorre em meio a uma disputa que envolve diferentes integrantes do Supremo e coloca o governo Lula diante de uma situação delicada. Segundo relatos, ministros mais próximos de Moraes conversaram com o presidente e apresentaram suas preocupações sobre os últimos acontecimentos.
Entorno de Moraes questiona atuação de Mendonça
Entre as queixas apresentadas a Lula está a avaliação, por parte de integrantes da Corte próximos a Moraes, de que o ministro André Mendonça, relator de processos relacionados ao Banco Master, estaria adotando uma postura alinhada aos interesses do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário político do presidente.
A avaliação é rejeitada pelo entorno de Mendonça, que nega qualquer alinhamento político e contesta a interpretação feita por aliados de Moraes sobre sua atuação.
O episódio ampliou o desconforto dentro do Supremo justamente em um momento de forte exposição pública da Corte, após a divulgação de informações relacionadas às investigações envolvendo Vorcaro.
Ministros cobram reação mais firme do governo
Durante as conversas com Lula, integrantes do STF também teriam manifestado insatisfação com o que consideram uma reação insuficiente do governo diante da crise institucional.
Um dos principais alvos das críticas foi o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias. A reclamação está relacionada à decisão da AGU de não avançar com um pedido da Polícia Federal para contestar determinadas medidas impostas por Mendonça no âmbito das investigações sobre o Banco Master e também sobre o caso do INSS.
Entre as medidas questionadas está a determinação para que dados brutos das investigações sejam compartilhados com o gabinete do relator, além da necessidade de comunicação prévia sobre alterações nas equipes responsáveis pelos inquéritos.
PF também entra no centro das cobranças
Outro ponto levado ao presidente envolve a atuação do Ministério da Justiça na defesa da Polícia Federal diante de vazamentos de informações relacionadas a investigações.
Entre os episódios citados estão informações sobre apurações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, e sua relação com uma rede de lobistas que teria atuação junto ao governo. O caso também contribui para aumentar a pressão sobre o Planalto em um momento em que Lula tenta evitar que as disputas internas do STF contaminem ainda mais o ambiente político.
Apesar das cobranças, aliados próximos ao presidente têm recomendado cautela. A orientação dada a Lula é evitar uma defesa pública de Alexandre de Moraes e manter distância da disputa que se intensifica dentro do Supremo.
Para o presidente, o cenário exige equilíbrio. De um lado, estão ministros de uma das instituições mais importantes do país cobrando uma posição mais clara do governo. Do outro, qualquer movimento em favor de um dos lados pode ser interpretado como interferência em uma disputa interna da Corte.
Enquanto as conversas avançam nos bastidores, a crise expõe novamente as dificuldades de convivência entre os Poderes em um ambiente político marcado por desconfianças e disputas. E, diante de um STF cada vez mais pressionado por decisões, investigações e conflitos internos, o silêncio de Lula pode ser tão estratégico quanto qualquer declaração pública.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Antônio Augusto/STF













