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Vorcaro é ouvido por juiz auxiliar de Mendonça sem presença da PF em meio a tentativa de nova delação

Ex-banqueiro relatou supostas intimidações e voltou a demonstrar interesse em colaborar com as investigações; gabinete de Mendonça afirma que o depoimento ocorreu a pedido da defesa e nega que Moraes tenha sido tema da oitiva.

Em meio à crescente tensão em torno do caso Banco Master e às revelações sobre a relação entre Daniel Vorcaro e integrantes das mais altas esferas da República, o ex-banqueiro foi ouvido na semana passada por um juiz auxiliar do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), sem a presença de agentes da Polícia Federal. A oitiva, realizada de forma reservada, ganhou ainda mais importância porque ocorreu justamente quando a defesa tenta abrir caminho para uma terceira colaboração premiada.

Segundo apurações divulgadas nesta quarta-feira (2), o depoimento aconteceu em caráter de urgência após a defesa de Vorcaro alegar que ele estaria sofrendo graves intimidações e solicitar que fosse ouvido diretamente pelo gabinete do relator do caso Master. O gabinete de Mendonça confirmou a realização da audiência e afirmou que a ausência da PF teve como objetivo preservar a integridade física e psicológica do depoente.

Oitiva ocorreu sem policiais federais

De acordo com informações obtidas por diferentes veículos, a audiência ocorreu na última semana, quando Vorcaro ainda estava custodiado na Papudinha, em Brasília. O juiz auxiliar João Azambuja teria ido pessoalmente até a unidade prisional para ouvi-lo. O Ministério Público Federal também participou do procedimento, conforme informações divulgadas pelo gabinete de Mendonça.

A ausência da Polícia Federal chamou atenção porque a corporação é responsável por parte central das investigações envolvendo o Banco Master. O gabinete de Mendonça, entretanto, sustentou que a medida encontra respaldo em normas do Conselho Nacional de Justiça e que o afastamento dos policiais responsáveis pela investigação pode ocorrer justamente para garantir a segurança do depoente em situações dessa natureza.

O ministro também esclareceu que o conteúdo da audiência permanece sob sigilo legal. E fez uma ressalva importante diante da crise envolvendo o STF: segundo o gabinete, não procede a informação de que assuntos relacionados ao ministro Alexandre de Moraes tenham sido tratados durante o depoimento.

Vorcaro teria relatado ameaças e pressão

Apesar do sigilo, informações divulgadas pela imprensa apontam que Vorcaro teria relatado durante a oitiva episódios que classificou como intimidações, maus-tratos e tortura psicológica enquanto esteve sob custódia. Ele também teria mencionado nominalmente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ao falar sobre o que considera resistência da corporação em aceitar uma nova colaboração premiada. Essas afirmações são atribuídas ao próprio ex-banqueiro e não representam fatos comprovados pelas investigações.

O tema da delação ganhou peso nas últimas semanas. A defesa de Vorcaro tenta, pela terceira vez, negociar um acordo de colaboração com as autoridades. Segundo a CNN, aliados do ex-banqueiro afirmavam que ele aguardava havia pelo menos 20 dias uma resposta sobre a possibilidade de ser ouvido novamente para apresentar os anexos de uma nova proposta.

A estratégia ganhou força depois da entrada de novos advogados na equipe de defesa. A intenção é reconstruir as negociações e apresentar informações consideradas relevantes para as investigações do caso Master. As duas tentativas anteriores não avançaram porque investigadores avaliaram que faltavam elementos novos e provas suficientes para justificar um acordo.

Depoimento à PF ocorreu no dia seguinte

Um detalhe torna a sequência dos acontecimentos ainda mais relevante. Na sexta-feira (28), um dia depois da oitiva realizada pelo gabinete de Mendonça, Vorcaro também prestou depoimento diretamente à Polícia Federal, em uma investigação relacionada à suspeita de cooptação de servidores do Banco Central. A audiência durou aproximadamente quatro horas e ocorreu por videoconferência.

Nesse depoimento, Vorcaro negou ter corrompido servidores do Banco Central e afirmou que os pagamentos investigados não tiveram relação com atos ilícitos. Ao final, porém, indicou que poderia apresentar mais informações caso tivesse a oportunidade de formalizar uma colaboração premiada.

A declaração reforça que a possibilidade de uma nova delação continua no centro da estratégia do ex-banqueiro. Ao mesmo tempo, a própria evolução das investigações pode tornar a negociação mais difícil, já que a PF vem reunindo documentos, mensagens e outros elementos sobre a atuação de Vorcaro e suas relações com autoridades e agentes públicos.

O caso Moraes aumenta a tensão em Brasília

A nova oitiva ocorre em um momento particularmente delicado para o Supremo. Na terça-feira (1º), André Mendonça retirou o sigilo de documentos relacionados à investigação que envolve mensagens trocadas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. O material divulgado expôs contatos do ex-banqueiro com o ministro e referências a autoridades como o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

As revelações provocaram forte repercussão política e institucional. Segundo documentos divulgados, Vorcaro teria buscado a interlocução de autoridades para tentar conter o avanço das investigações sobre o Banco Master. O conteúdo passou a ser analisado dentro e fora do Supremo e aumentou a pressão sobre a relação entre o banqueiro e integrantes da cúpula do Estado.

É justamente por isso que a confirmação de que Vorcaro foi ouvido pelo gabinete de Mendonça, sem a participação da PF, ganha uma dimensão ainda maior. Embora o gabinete negue que Alexandre de Moraes tenha sido tema da conversa, a coincidência temporal entre a oitiva, a tentativa de uma nova delação e a divulgação das mensagens ampliou as atenções sobre os próximos passos do caso.

O advogado Daniel Bialski, que representa Vorcaro, informou que a defesa não vai se manifestar sobre o depoimento.

Enquanto as investigações avançam e diferentes versões são colocadas sobre a mesa, o caso Master deixa cada vez mais evidente o tamanho do desafio enfrentado pelas instituições brasileiras. Entre mensagens, depoimentos, acusações e tentativas de colaboração, o que está em jogo não é apenas o destino de um ex-banqueiro, mas a capacidade das autoridades de separar fatos comprovados de versões interessadas e garantir que a verdade apareça, independentemente de quem esteja envolvido.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Diário da Manhã

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