Governo argentino afirma que não pretende se retratar após declarações de Javier Milei durante convenção do PL. Itamaraty reagiu com convocações diplomáticas, mas, por enquanto, não há previsão de medidas mais severas.
A crise diplomática entre Brasil e Argentina ganhou um novo capítulo e mostra que a tensão entre os dois governos está longe de um desfecho. Após as duras declarações do presidente argentino Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, o governo argentino sinalizou que não pretende apresentar qualquer pedido de desculpas, apesar da forte reação do Itamaraty.
A informação foi divulgada pelo jornal argentino La Nación, que afirma que a decisão já foi comunicada internamente pelo governo de Buenos Aires. Enquanto o Brasil cobra respeito às instituições nacionais, a gestão de Milei mantém a posição adotada durante o evento político realizado em São Paulo, aprofundando um desgaste que especialistas já classificam como um dos mais graves da história recente entre os dois países.
Buenos Aires mantém posição
Segundo o La Nación, fontes do governo argentino afirmaram que não haverá retratação nem por parte do presidente Javier Milei nem do embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi.
A decisão foi mantida mesmo após o Ministério das Relações Exteriores brasileiro convocar o diplomata argentino para prestar esclarecimentos sobre as declarações feitas durante a convenção do Partido Liberal (PL).
De acordo com a publicação, apesar do agravamento da crise, o governo brasileiro também não avalia, neste momento, medidas extremas, como o rompimento das relações diplomáticas ou a expulsão de representantes argentinos.
Discurso provocou reação imediata
A crise teve início no último sábado (25), quando Javier Milei participou da convenção que oficializou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Durante um discurso de aproximadamente 30 minutos, o presidente argentino fez críticas ao governo brasileiro, referiu-se a Lula com ofensas e chamou o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca”, em referência à decisão judicial que impediu sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
Milei também defendeu a candidatura de Flávio Bolsonaro e afirmou que o Brasil deveria abandonar o que chamou de “submissão ao esquerdismo”.
Itamaraty reagiu com medidas diplomáticas
Em resposta, o governo brasileiro adotou uma série de medidas diplomáticas.
O Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para transmitir oficialmente a insatisfação do governo brasileiro e pedir esclarecimentos sobre as declarações do presidente argentino.
Ao mesmo tempo, o Ministério das Relações Exteriores determinou o retorno do embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para consultas sobre os impactos da crise nas relações bilaterais.
Em nota oficial, a diplomacia brasileira afirmou que “não há precedentes” para que um chefe de Estado estrangeiro utilize território brasileiro para dirigir ofensas ao presidente da República, às instituições democráticas, ao Poder Judiciário e ao povo brasileiro.
Especialistas apontam maior crise em décadas
A repercussão do episódio também dominou o debate político na Argentina.
Em análise publicada pelo La Nación, o jornalista Claudio Jacquelin afirma que diplomatas, especialistas em relações internacionais e ex-integrantes do serviço diplomático dos dois países avaliam que o episódio desencadeou a maior crise diplomática entre Brasil e Argentina dos últimos 50 anos.
Apesar da gravidade do momento, a expectativa predominante entre analistas é de que ambos os governos busquem preservar a cooperação econômica e comercial, considerada estratégica para as duas maiores economias da América do Sul.
Enquanto Buenos Aires descarta qualquer gesto de retratação e Brasília reforça sua reação institucional, o impasse evidencia como divergências políticas podem rapidamente ultrapassar o campo do discurso e atingir a diplomacia entre países historicamente parceiros. Os próximos movimentos dos dois governos serão decisivos para definir se a crise permanecerá restrita ao campo político ou produzirá reflexos mais amplos na relação bilateral.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: EFE/EPA/CRISTOBAL HERRERA











