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Moraes e Vorcaro: mensagens revelam encontros, evento em Londres e edição de contrato de R$ 131 milhões

Investigação da Polícia Federal aponta proximidade entre ministro do STF e ex-banqueiro do Master; metadados indicam alteração feita por usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” em contrato com escritório da esposa do magistrado.

As revelações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro colocaram sob os holofotes uma relação que, até então, era conhecida principalmente pelo vínculo profissional entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do magistrado. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal agora mostram encontros pessoais entre os dois, planos para um “evento super exclusivo” em Londres e conversas que indicam um grau de proximidade que passou a ser analisado pelos investigadores.

O material encontrado no celular de Vorcaro também trouxe um dado especialmente sensível: metadados de um contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, apontam que a versão do documento foi aberta e alterada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O escritório confirmou que o magistrado teve acesso à minuta e afirmou que isso ocorreu para verificar a eventual existência de impedimentos legais.

Evento em Londres e encontros entre os dois

As mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro planejou um encontro considerado por ele um “evento super exclusivo” com Moraes durante uma passagem por Londres. Em outro momento, em abril de 2024, o banqueiro relatou ter encontrado o ministro e afirmou que pretendia marcar um jantar com as respectivas mulheres.

Em uma das conversas, um funcionário de Vorcaro encaminhou ao banqueiro informações sobre uma reunião marcada para as 18h “na casa do Alexandre”. As mensagens também sugerem que Moraes teria interferido na lista de participantes de um dos encontros, vetando determinadas pessoas.

O conjunto de informações levou a PF a identificar indícios de pelo menos seis encontros presenciais entre Vorcaro e Moraes. Os registros apontam que os contatos ocorreram em diferentes momentos, inclusive em locais informais, e indicam uma relação de proximidade que passou a fazer parte da investigação.

A frequência dos encontros chama atenção porque ocorre no mesmo período em que o escritório de Viviane Barci de Moraes mantinha uma relação profissional milionária com o Banco Master, então controlado por Vorcaro.

Contrato de R$ 131 milhões entrou no centro da investigação

O contrato entre o Banco Master e o escritório da esposa de Moraes previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3,6 milhões durante três anos. Se cumprido integralmente, o acordo chegaria a cerca de R$ 131,2 milhões.

Segundo os metadados analisados pela PF e divulgados pelo jornal O Estado de S. Paulo, o arquivo foi aberto e modificado no sistema Office 365 às 23h04 de 15 de janeiro de 2024 por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O registro técnico passou a ser um dos elementos considerados na apuração.

O escritório Barci de Moraes confirmou que Alexandre de Moraes teve acesso ao documento. Em nota, a banca explicou que seu setor de compliance pediu informações ao ministro, na condição de marido de uma das sócias, para verificar a existência de eventual impedimento legal para a contratação.

A justificativa apresentada foi de que a consulta buscava identificar, por exemplo, se havia processos no STF envolvendo o Banco Master sob relatoria de Moraes ou alguma outra circunstância que pudesse impedir a contratação.

Segundo o escritório, após a análise, o ministro teria concluído que não existia impedimento. A banca sustenta ainda que Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master no STF.

Banca recebeu R$ 80,2 milhões em dois anos

O contrato não ficou apenas no papel. Dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado do Senado indicam que o Banco Master declarou pagamentos de R$ 80,2 milhões ao escritório de Viviane Barci de Moraes entre 2024 e 2025.

Os registros apontam 11 pagamentos de aproximadamente R$ 3,64 milhões ao longo de 2024, totalizando cerca de R$ 40,1 milhões. Em 2025, outros R$ 40,1 milhões foram declarados. Os pagamentos foram interrompidos após a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro de 2025.

O escritório, porém, contestou anteriormente a divulgação desses dados e afirmou que as informações eram incorretas e haviam sido obtidas de maneira ilícita, ressaltando o caráter sigiloso dos dados fiscais.

A banca também detalhou a dimensão do trabalho realizado para o banco. Segundo nota divulgada em março, uma equipe de 15 advogados atuou na consultoria, com a participação de outros três escritórios especializados contratados sob sua coordenação.

Ao longo do período, foram produzidos 36 pareceres e opiniões legais. Também foram realizadas 94 reuniões de trabalho, sendo 79 presenciais na sede do Banco Master, 13 com a presidência da instituição e outras duas por videoconferência.

Escritório nega atuação do Master no STF

A defesa institucional da banca é de que o trabalho prestado ao Banco Master foi exclusivamente jurídico e não envolveu atuação em processos da instituição no Supremo.

O escritório afirma que os serviços incluíram consultoria em diferentes áreas, como compliance, questões regulatórias, contratos, proteção de dados, crédito e temas trabalhistas e previdenciários.

A própria banca informou que as atividades foram realizadas entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, quando a liquidação extrajudicial do Banco Master encerrou a relação contratual.

O escritório de Viviane Barci também sustenta que a atuação foi efetivamente realizada e que os serviços contratados foram prestados por uma equipe especializada.

Mensagens ampliam pressão sobre Moraes

As revelações sobre os encontros e o contrato ganharam ainda mais peso depois que a Polícia Federal identificou outras mensagens atribuídas a Vorcaro e Moraes.

Segundo documentos analisados pela investigação, o banqueiro teria conversado com o interlocutor identificado pela PF como Alexandre de Moraes sobre o avanço da Operação Compliance Zero, que investigava o Banco Master.

Em novembro de 2025, pouco antes de ser preso, Vorcaro teria questionado se deveria deixar o país. A mensagem, enviada dois dias antes da prisão, levantou suspeitas sobre eventual conhecimento antecipado a respeito da operação policial.

O ministro André Mendonça, relator do caso, determinou que a Polícia Federal produzisse um relatório sobre as mensagens e pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República. A decisão também ampliou a exposição pública das conversas e da relação entre Moraes e Vorcaro.

PF investiga dimensão da relação

A apuração não se limita ao contrato milionário ou aos encontros pessoais. As mensagens encontradas no celular de Vorcaro passaram a ser examinadas para verificar se houve tentativa de utilização da proximidade com autoridades para obter informações ou interferir no andamento de investigações.

Relatórios da PF citados nesta terça-feira também apontam mensagens nas quais Vorcaro mencionaria o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O conteúdo está sendo analisado no âmbito do inquérito e ainda precisa ser confrontado com outros elementos antes de qualquer conclusão definitiva.

A defesa e os envolvidos terão espaço para apresentar suas versões, enquanto o STF e a Procuradoria avaliam os desdobramentos jurídicos das informações reunidas pela investigação.

Um caso que coloca confiança institucional no centro do debate

O caso ganhou uma dimensão que ultrapassa os nomes de Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro e o Banco Master. Ele toca em uma questão delicada para qualquer democracia: até onde podem chegar as relações pessoais e profissionais de autoridades que exercem funções de enorme poder e responsabilidade.

Não há, até o momento, conclusão definitiva de que a proximidade entre Moraes e Vorcaro tenha resultado em qualquer favorecimento ou ilegalidade. O que existe são mensagens, registros técnicos, contratos milionários e encontros que agora estão sob escrutínio das autoridades.

É justamente por isso que cada nova informação tem peso. Quando o assunto envolve um ministro da mais alta Corte do país, a transparência deixa de ser apenas uma formalidade e passa a ser uma necessidade para preservar a confiança nas instituições. No fim, mais importante do que as versões que circulam é que todas as perguntas sejam respondidas com provas, clareza e responsabilidade, porque a credibilidade da Justiça também é construída na forma como seus próprios integrantes enfrentam momentos de dúvida.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Jovem Pan

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