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MP afirma que Virginia Fonseca induziu seguidores a aposta improvável durante a Copa e pede condenação milionária

Ministério Público sustenta que influenciadora utilizou linguagem emocional para estimular apostas na Blaze e aponta possível conflito de interesses na remuneração recebida.

A força das redes sociais voltou ao centro de uma discussão que vai além do entretenimento e levanta questionamentos sobre responsabilidade, influência e proteção do consumidor. Uma ação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) acusa a influenciadora Virginia Fonseca de incentivar milhões de seguidores a realizarem apostas esportivas por meio de uma estratégia considerada capaz de induzir decisões impulsivas, especialmente durante a Copa do Mundo de 2026.

Segundo a ação, ajuizada pelo MPDFT, Virginia teria integrado um modelo estruturado de captação de apostadores desenvolvido pela plataforma Blaze. O documento sustenta que a influenciadora utilizou sua enorme audiência nas redes sociais para promover apostas em um cenário de baixa probabilidade de sucesso, sem deixar claro que o conteúdo possuía caráter publicitário.

Aposta em Cabo Verde está no centro da ação

De acordo com o Ministério Público, um dos episódios considerados mais relevantes ocorreu durante a partida entre Argentina e Cabo Verde pela Copa do Mundo.

Na ocasião, Virginia, que reúne mais de 56 milhões de seguidores nas redes sociais, publicou vídeos afirmando estar “esperançosa” com uma vitória da seleção africana e incentivando os seguidores a realizarem apostas nesse resultado.

Para o MPDFT, a escolha da aposta não foi aleatória.

O órgão afirma que se tratava de um resultado de baixa probabilidade, mas que oferecia retorno financeiro elevado aos apostadores, tornando a recomendação ainda mais atrativa para quem buscava ganhos rápidos.

Segundo o documento, a influenciadora utilizou linguagem emocional para aumentar o engajamento e estimular a tomada de decisão dos consumidores.

“Virginia operou sobre um viés cognitivo documentado, intensificando a percepção de atratividade de um resultado objetivamente improvável sem qualquer menção às probabilidades reais”, afirma o Ministério Público na ação.

Como previsto, a Argentina venceu a partida por 3 a 2, fazendo com que os consumidores que seguiram a recomendação perdessem integralmente os valores apostados.

Investigação aponta possível comissão sobre perdas

Outro ponto destacado pelo Ministério Público envolve a forma de remuneração da influenciadora.

Segundo a investigação, Virginia poderia receber até 30% de comissão sobre as perdas registradas pelos usuários captados por meio de suas divulgações.

Caso essa forma de remuneração seja comprovada ao longo do processo, o MP entende que haveria um significativo conflito de interesses, já que o eventual ganho financeiro da influenciadora estaria diretamente relacionado ao prejuízo dos consumidores.

A ação também sustenta que os conteúdos divulgados durante a Copa não apresentavam sinalização clara indicando que se tratava de publicidade, prática exigida pelas normas de defesa do consumidor e pelas regras de publicidade digital.

MP pede indenização de R$ 120 milhões

Além de Virginia Fonseca, a plataforma Blaze também é alvo da ação civil pública.

O Ministério Público pede que a Justiça condene solidariamente a empresa e a influenciadora ao pagamento de R$ 120 milhões por danos morais coletivos.

Segundo o órgão, o valor foi calculado com base em uma estimativa conservadora de receita anual da plataforma, estimada em aproximadamente R$ 600 milhões.

A investigação teve início após o recebimento de diversas denúncias de consumidores que relataram retenção de valores, bloqueio de contas e dificuldades para sacar recursos depositados na plataforma.

Um relatório técnico anexado ao processo também aponta mais de 42 mil reclamações envolvendo a Blaze, indicando, segundo o MP, um padrão recorrente de possíveis violações aos direitos dos consumidores.

Na ação, o Ministério Público afirma que a empresa adotou uma estratégia coordenada de publicidade durante a Copa do Mundo, utilizando celebridades e influenciadores digitais para ampliar o alcance das campanhas e estimular apostas em momentos de grande envolvimento emocional do público.

“O jogo vende a fantasia do dinheiro fácil. A única aposta garantida é a da casa. E a casa contratou justamente quem você admira para te convencer a jogar”, destaca um trecho da ação.

Além da indenização, o MP pede que a Justiça determine a suspensão imediata das campanhas publicitárias consideradas irregulares e impeça novas práticas que possam violar o Código de Defesa do Consumidor e a regulamentação das apostas esportivas.

Blaze afirma que ainda não foi intimada

Em nota, a Foggo Entertainment Ltda., responsável pela operação da Blaze no Brasil, informou que ainda não foi formalmente intimada sobre a ação.

A empresa afirmou que atua em conformidade com a legislação brasileira, segue princípios de jogo responsável e prestará todos os esclarecimentos às autoridades assim que for oficialmente notificada.

Defesa de Virginia nega irregularidades

A defesa de Virginia Fonseca informou que tomou conhecimento da ação por meio da imprensa e afirmou que responderá tecnicamente às acusações nos autos do processo.

Os advogados sustentam que a própria ação reconhece a existência de diligências ainda pendentes, como a obtenção de contratos e outras informações consideradas essenciais para esclarecer a natureza da relação entre a influenciadora e a plataforma.

A defesa também rejeitou qualquer alegação de atuação predatória, conluio ou intenção de causar prejuízos aos consumidores, afirmando que eventual responsabilização deve ser baseada em provas concretas e não em presunções decorrentes da notoriedade pública da influenciadora.

Debate sobre publicidade digital ganha novos contornos

A ação movida pelo Ministério Público amplia um debate que vem crescendo no Brasil: até onde vai a responsabilidade de influenciadores digitais ao promover produtos e serviços para milhões de seguidores. Em um ambiente em que credibilidade, entretenimento e publicidade frequentemente se misturam, o caso pode estabelecer novos parâmetros para a divulgação de apostas esportivas nas redes sociais e reforçar a necessidade de transparência nas relações entre plataformas, criadores de conteúdo e consumidores. Enquanto a Justiça analisa as acusações, o episódio reacende um alerta sobre os riscos do jogo impulsivo e o poder de influência exercido pelas grandes personalidades da internet.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Instagram/Vírginia Fonseca

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