Após meses de distanciamento, presidente e senador ensaiam trégua política com interesses que passam pela pauta do Senado, indicações e eleição para o comando da Casa em 2027.
Depois de meses marcados por distância e atritos, Luiz Inácio Lula da Silva e Davi Alcolumbre voltaram a abrir espaço para o diálogo. Por trás da reaproximação, porém, existe muito mais do que uma tentativa de pacificação entre dois importantes nomes da política brasileira. Nos bastidores, estão em jogo interesses do governo, pautas do Senado, indicações para órgãos públicos e, principalmente, a disputa pelo comando da Casa a partir de 2027.
Segundo apuração da analista de Política da CNN Isabel Mega, a trégua começou a ser construída durante um jantar organizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O encontro teria funcionado como uma espécie de quebra-gelo entre Lula e Alcolumbre e abriu caminho para que o presidente tomasse a iniciativa de procurar o senador para uma conversa direta, sem intermediários.
Um acordo de interesses mútuos
A aproximação atende a interesses dos dois lados. Para o governo Lula, melhorar a relação com Alcolumbre pode ser fundamental para destravar votações e indicações que dependem do Senado. Entre os movimentos avaliados está a tentativa de reapresentar o nome de Jorge Messias, advogado-geral da União, para uma vaga no STF, depois da derrota sofrida pelo governo na primeira tentativa.
Também circulam articulações envolvendo o senador Rodrigo Pacheco para uma possível indicação ao Tribunal de Contas da União (TCU). Ao mesmo tempo, Alcolumbre teria interesse em fazer avançar indicações para agências reguladoras, que estão paralisadas em meio ao desgaste entre o Senado e o Palácio do Planalto.
Na avaliação de Isabel Mega, a lógica é de ganha-ganha. O governo precisa do Senado para fazer sua agenda avançar, enquanto Alcolumbre depende do Executivo para destravar interesses que passam pela máquina federal.
Eleição de 2027 já entra no cálculo
Mas existe uma preocupação ainda maior no horizonte: a sucessão na presidência do Senado. A eleição só ocorrerá em 2027, mas as articulações já começaram a movimentar os bastidores de Brasília.
A direita também já trabalha para ocupar espaço na disputa, e nomes como a senadora Tereza Cristina começam a demarcar posição. Outro personagem que pode alterar completamente o equilíbrio de forças é Arthur Lira, que deixará a Câmara dos Deputados para assumir uma cadeira no Senado.
A chegada de Lira é vista como um possível desafio à permanência de Alcolumbre no comando da Casa. Segundo a analista, aliados do presidente do Senado já demonstram preocupação com esse novo cenário.
Por isso, a reaproximação com Lula também pode ser interpretada como uma jogada preventiva. Alcolumbre buscaria garantir que o Planalto não se transforme em um obstáculo para sua eventual tentativa de permanecer à frente do Senado.
Pautas importantes aguardam avanço
Enquanto as articulações políticas avançam nos bastidores, há uma série de assuntos concretos que dependem de entendimento entre governo e Congresso.
Entre eles está a medida provisória relacionada às compras internacionais de baixo valor, conhecida como “MP das blusinhas”, que tem prazo de validade até setembro. Também estão no radar medidas relacionadas à política de minerais críticos.
Outros temas de grande impacto, como o fim da jornada de trabalho 6×1 e a PEC da Segurança Pública, também permanecem na pauta do Senado. Apesar da relevância, o próprio governo avalia com cautela as chances de avanço dessas propostas antes das eleições.
Uma trégua com os olhos no futuro
A aproximação entre Lula e Alcolumbre mostra como, em Brasília, alianças raramente são construídas apenas olhando para o presente. Enquanto o governo busca recuperar espaço e garantir votações importantes, o presidente do Senado já precisa pensar no próximo capítulo de sua trajetória política.
O jantar que serviu como ponto de partida para essa reaproximação pode, portanto, representar mais do que um simples encontro entre adversários circunstanciais. Em um Congresso onde cada voto tem peso e cada movimento pode antecipar uma disputa futura, a trégua entre Lula e Alcolumbre revela que a política de 2027 já começou a ser construída muito antes de a população ser chamada novamente às urnas.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Revista Veja













