Márcio Elias Rosa defende cautela diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, afirma que medidas precisam ser eficazes e avalia que as sanções têm motivação que vai além da economia.
Em meio ao aumento da tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos, o governo federal reforça o discurso de prudência. Embora a Lei da Reciprocidade Econômica esteja disponível como instrumento de resposta ao tarifaço norte-americano, integrantes do Palácio do Planalto defendem que qualquer reação deve ser cuidadosamente planejada para evitar prejuízos ainda maiores ao próprio país.
Foi essa a mensagem transmitida pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, nesta quarta-feira (22), ao comentar as alternativas estudadas pelo governo diante das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
Ministro defende cautela na aplicação da reciprocidade
Em entrevista à BandNews, Elias Rosa afirmou que a existência da Lei da Reciprocidade não significa que o Brasil deva agir de forma impulsiva.
Segundo ele, qualquer medida precisa ser tecnicamente fundamentada e estrategicamente eficiente.
“A lei não nos dá o direito de perder a razão. Mas ninguém pode perder a razão só porque tem a lei sobre seu fundamento. O instrumento da reciprocidade está à nossa disposição”, afirmou o ministro.
Ele ressaltou que o maior desafio é encontrar uma resposta capaz de produzir resultados concretos sem provocar impactos mais severos para a economia brasileira.
Objetivo é evitar prejuízo maior ao Brasil
Na avaliação do ministro, uma eventual medida de reciprocidade precisa ser cuidadosamente dimensionada.
Segundo Elias Rosa, além de atingir quem impôs a sanção, qualquer resposta deve evitar consequências negativas para empresas, consumidores e setores produtivos brasileiros.
“Se você for adotar a reciprocidade, você precisa ferir o adversário. Não apenas irritá-lo, porque senão você perde o controle e o domínio da negociação”, declarou.
A fala reforça o posicionamento adotado pelo governo nos últimos dias, priorizando o diálogo diplomático e a busca de soluções negociadas antes da adoção de medidas de retaliação.
Tarifas teriam motivação além da economia
Durante a entrevista, o ministro afirmou que o Brasil apresentou argumentos e negociou todos os pontos relacionados à investigação conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.
Mesmo assim, segundo ele, as negociações não avançaram.
Na avaliação de Elias Rosa, se a discussão envolvesse apenas questões econômicas, um entendimento já teria sido alcançado.
Para o ministro, as tarifas impostas ao Brasil possuem características mais próximas de uma sanção política do que de um mecanismo destinado exclusivamente à regulação do comércio internacional.
Sem citar diretamente autoridades norte-americanas, ele afirmou ainda que é difícil convencer alguém que demonstra “dificuldade para se conectar com a realidade”.
Diversificar mercados é prioridade
Diante do novo cenário comercial, o ministro voltou a defender a ampliação dos mercados consumidores para os produtos brasileiros.
Segundo Elias Rosa, o Brasil possui condições de reduzir sua dependência de determinados parceiros comerciais, fortalecendo relações com outros países e ampliando oportunidades para a indústria nacional.
Ele lamentou, no entanto, a perda de espaço dos Estados Unidos na corrente de comércio brasileira.
Tradicional parceiro econômico do Brasil, os EUA vêm sendo superados pela China nos últimos anos como principal destino e origem de diversos produtos comercializados pelo país.
Mesmo assim, o ministro destacou que manter uma relação saudável com os norte-americanos continua sendo importante para ambas as economias.
“É um parceiro comercial muito relevante os EUA. Não é razoável e nem é bom que nós não tenhamos um acordo com eles e acho que nós não podemos, de maneira alguma, alimentar qualquer dissenso. A despeito do desaforo, nós temos que continuar na mesa de negociação tentando trazer de volta”, afirmou.
Em um cenário de incertezas econômicas e disputas comerciais cada vez mais complexas, o desafio do Brasil será encontrar o equilíbrio entre defender seus interesses e preservar relações estratégicas construídas ao longo de décadas. Mais do que responder a tarifas, o momento exige decisões capazes de proteger empresas, empregos e consumidores, sem fechar as portas para o diálogo que, muitas vezes, continua sendo o caminho mais eficaz para superar conflitos internacionais.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil












