Um dia antes de concentrar o caso no Supremo, ministro recebeu manifestação da PF que apontava ausência de indícios contra pessoas com foro; relatório posterior levantou suspeitas sobre fundo de R$ 35 milhões ligado a Vorcaro, relação com Toffoli e possível influência em julgamento.
A investigação sobre o Banco Master ganhou novos contornos com a divulgação de documentos que ajudam a reconstruir os caminhos percorridos pelo caso dentro do Supremo Tribunal Federal. Um dos pontos que chama atenção é a sequência de acontecimentos envolvendo o ministro Dias Toffoli, Daniel Vorcaro e a própria Polícia Federal, que, em dezembro de 2025, havia informado não ter encontrado indícios de crimes envolvendo autoridades com prerrogativa de foro ou pessoas politicamente expostas.
A manifestação da PF foi assinada em 2 de dezembro de 2025, após uma análise dos elementos reunidos na investigação, incluindo celulares e outros equipamentos eletrônicos. Segundo os investigadores, até aquele momento, a apuração estava concentrada exclusivamente na possível prática de crimes financeiros e não havia identificado indícios contra autoridades ou pessoas politicamente expostas.
Toffoli levou o caso ao STF
No dia seguinte, 3 de dezembro, Dias Toffoli determinou que todos os processos relacionados à Operação Compliance Zero e ao Banco Master fossem remetidos e concentrados no STF, sob sua relatoria.
Na decisão, o ministro justificou a medida com a necessidade de evitar vazamentos que pudessem prejudicar as investigações. Poucos dias depois, o caso passou a tramitar sob sigilo máximo. A movimentação ocorreu apenas cinco dias depois de Toffoli ter sido sorteado relator de uma reclamação apresentada pelo próprio Daniel Vorcaro, em 28 de novembro de 2025.
Meses depois, em fevereiro, Toffoli deixou a relatoria após suspeitas de envolvimento com Vorcaro. O ministro foi substituído por André Mendonça, que assumiu o caso após novo sorteio.
Relatório da PF cita fundo de R$ 35 milhões
Um relatório da Polícia Federal, divulgado pela revista Piauí, acrescentou uma nova frente à investigação. Segundo o documento, os investigadores levantaram a hipótese de que Dias Toffoli poderia ser o beneficiário final ou o proprietário de fato do Fundo de Investimento em Participações Arleen, que teria recebido pelo menos R$ 35 milhões de Daniel Vorcaro.
A PF identificou uma operação envolvendo a empresa Egide I, por meio da qual os recursos do fundo teriam sido transferidos para uma estrutura registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, território considerado paraíso fiscal no Caribe.
O Arleen era sócio do Tayayá, resort ligado a Toffoli e à família do ministro em Ribeirão Claro, no interior do Paraná. Segundo o relatório, o fundo pertencia anteriormente a Vorcaro e, em fevereiro de 2025, passou para o empresário Alberto Leite, apontado como amigo de Toffoli e proprietário da empresa FS Security.
Um mês depois da aquisição, ainda conforme a PF, Leite registrou a Egide I nas Ilhas Virgens Britânicas. O regulamento do Arleen também foi alterado para permitir investimentos no exterior. Em novembro, o fundo começou a se desfazer das cotas e, em dezembro, cerca de R$ 34 milhões foram transferidos para a empresa no exterior.
Para os investigadores, a movimentação reuniria elementos que poderiam indicar que Toffoli teria figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do Arleen e de seus ativos. A PF também levantou a possibilidade de utilização de interpostas pessoas e estruturas no exterior para a movimentação dos recursos.
Vorcaro acompanhava pagamentos
O relatório também aponta que Daniel Vorcaro acompanhava de perto os pagamentos destinados ao Arleen. Em agosto de 2024, o banqueiro teria demonstrado preocupação com atrasos nas transferências e acionado pessoas próximas, entre elas o cunhado Fabiano Zettel e o ex-ministro Fábio Faria.
Na ocasião, segundo os investigadores, Vorcaro também enviou uma mensagem diretamente a Toffoli para justificar o atraso dos pagamentos.
Já em novembro de 2025, após uma decisão relacionada ao caso da usina Alcídia, Vorcaro teria começado a discutir sua saída do Tayayá e, consequentemente, sua desvinculação do Arleen. Em uma mensagem enviada a Zettel, afirmou que o “FIP Tayayá” deveria passar para “um amigo que vai comprar” e, em seguida, perguntou se poderia pedir que essa pessoa entrasse em contato. O nome informado por ele foi apenas “Alberto”. Segundo a PF, tratava-se de Alberto Leite.
Leite aparece ainda em outros episódios citados pelos investigadores. Em um plano de negócios encontrado no celular de Vorcaro, datado de abril de 2024, ele, Fábio Faria e o próprio banqueiro aparecem como diretores da Skylink, empresa criada para representar a Starlink, de Elon Musk, no Brasil.
A FS Security, empresa de Leite, também aparece entre as patrocinadoras de um fórum jurídico financiado pelo Banco Master em Londres. Posteriormente, segundo o relatório, Vorcaro teria determinado a retirada da empresa da relação de patrocinadores.
Outro episódio ocorreu em junho de 2024, quando Leite custeou um camarote na final da Liga dos Campeões, em Londres, que recebeu Toffoli. À época, o empresário afirmou à Folha de S.Paulo que a aquisição do Arleen havia sido uma operação imobiliária regular e lucrativa realizada por seu braço de investimentos. Também negou qualquer vínculo societário, comercial ou favorecimento em relação ao ministro.
Caso dos precatórios entra na investigação
O relatório da PF também levantou a hipótese de que Vorcaro poderia ter tentado influenciar uma decisão de Toffoli em um processo envolvendo precatórios do setor sucroalcooleiro.
A disputa envolvia a destilaria Alcídia, do grupo Atvos, que cobrava da União uma reparação por prejuízos provocados na década de 1980. Uma eventual decisão favorável à empresa poderia impactar a carteira de precatórios do setor mantida pelo Banco Master, que, segundo o relatório, ultrapassava R$ 10 bilhões.
Antes do julgamento, o diretor jurídico do Master, André Kruschewsky, enviou mensagem a Vorcaro afirmando: “É importante! Serve de paradigma para nossos casos.”
Segundo a PF, Toffoli mantinha historicamente posição favorável às usinas em processos envolvendo precatórios. Dias antes do julgamento da Alcídia, porém, o ministro teria adotado entendimento diferente em uma ação semelhante e votado a favor da União.
A mudança teria provocado preocupação entre pessoas próximas a Vorcaro. Fábio Faria, segundo as mensagens analisadas, escreveu “Matou a gente” e “Comecei a suar”.
Em conversas com Kruschewsky, Vorcaro teria afirmado que estava acompanhando o julgamento e, posteriormente, escrito: “Tô tratando aqui”. O julgamento ocorreu em outubro de 2024, Toffoli votou a favor da Alcídia e a tese da empresa venceu por 3 votos a 2. O resultado foi comemorado por integrantes do Master. O gabinete de Toffoli negou à revista Piauí qualquer alteração de voto.
A própria Polícia Federal ressalta que os elementos ainda precisam ser aprofundados e que, naquele momento, não eram suficientes para conclusões definitivas. Para os investigadores, porém, mensagens como “Toffoli virou o voto” e “tô tratando aqui” ganham relevância por terem ocorrido pouco antes do julgamento e em meio a conversas sobre a necessidade de acompanhar e se movimentar em relação ao processo.
Encontros e relação profissional
A investigação também identificou outros vínculos entre Toffoli e Vorcaro. Segundo a PF, foram encontrados pelo menos 12 registros de encontros presenciais entre os dois em contextos considerados pelos investigadores como não estritamente profissionais.
Mensagens analisadas pela corporação também fazem referência à expressão “nosso amigo Zé Tof”, que, na avaliação dos investigadores, poderia indicar a existência de uma relação pessoal entre os envolvidos.
Outro ponto citado no relatório é a relação profissional entre Vorcaro e Roberta Rangel, então esposa de Toffoli. Segundo a PF, ela teria atuado como advogada do banqueiro entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025.
Em uma conversa de março de 2024, um advogado informou a Vorcaro que a parte contrária em um processo no Superior Tribunal de Justiça havia constituído Roberta Rangel e acrescentou: “Mulher do Toffoli”. Na sequência, Vorcaro respondeu: “Ela é minha advogada”.
O documento também menciona uma procuração enviada ao celular de Vorcaro em maio de 2021, na qual Roberta Rangel aparecia como representante da Companhia Agroindustrial de Goiânia em uma ação rescisória. O precatório da empresa fazia parte da carteira de ativos do Banco Master em duas posições que, somadas, chegavam a R$ 1,8 bilhão.
Toffoli deixa relatoria
Dez meses depois do último registro identificado pela PF sobre a relação profissional entre Vorcaro e Roberta, Toffoli foi sorteado relator do caso Master no Supremo.
O relatório foi encaminhado ao presidente do STF, Edson Fachin. Segundo o documento, ministros da Corte não podem ser investigados sem autorização do próprio tribunal.
Após o envio do material, a Polícia Federal pediu a suspeição de Toffoli. O ministro então deixou a relatoria, fazendo com que o pedido de suspeição perdesse o objeto e o documento fosse arquivado. Na época, a saída da relatoria foi anunciada em nota assinada pelos dez ministros da Corte após uma reunião fechada que durou mais de quatro horas.
Em fevereiro, André Mendonça assumiu a relatoria do caso. Na noite de quinta-feira (10), ele determinou a retirada do sigilo de parte das investigações. O relatório da PF que citava Toffoli, porém, não foi incluído na liberação por já ter sido arquivado.
A sequência de decisões, mudanças de relatoria, documentos sigilosos e suspeitas envolvendo personagens que ocupam posições centrais na República coloca o caso Master diante de uma questão que vai muito além de uma disputa judicial: a necessidade de esclarecer, com transparência e segurança, como o dinheiro circulou, quais relações foram estabelecidas e se houve ou não influência sobre decisões públicas. As suspeitas ainda precisam ser comprovadas, mas o volume de informações reunidas pela investigação mostra que cada documento liberado pode acrescentar uma nova peça a um quebra-cabeça que o país espera ver, enfim, completamente montado.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Andressa Anholete/STF













