Senador afirma que empresário Augusto Lima se considera seu amigo, nega irregularidades e acusa a Polícia Federal de promover “espetacularização” durante as investigações da Operação Compliance Zero.
Em meio ao avanço das investigações da Operação Compliance Zero e ao aumento da pressão política em Brasília, o senador baiano Jaques Wagner voltou a se pronunciar publicamente sobre sua relação com o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master. Em entrevista publicada nesta sexta-feira (26), o parlamentar reconheceu a existência de uma relação próxima com o empresário, mas rejeitou qualquer associação entre essa amizade e as suspeitas investigadas pela Polícia Federal.
O senador afirmou que conheceu Augusto Lima durante o processo de privatização do programa Cesta do Povo, na Bahia, e que o relacionamento se desenvolveu ao longo dos anos. Segundo ele, a Polícia Federal estaria construindo uma interpretação equivocada sobre essa proximidade ao tentar vinculá-la às investigações envolvendo empresas ligadas a familiares.
Relação pessoal, mas sem vínculo comercial
Jaques Wagner declarou que Augusto Lima mantém uma relação de admiração pessoal por ele, mas negou qualquer troca de favores ou participação em atividades empresariais investigadas.
“Conheci Augusto Lima no processo de privatização da Cesta do Povo. Criou-se uma relação. Ele se considera meu amigo. A Polícia Federal está construindo uma tese de que essa empresa da minha nora foi construída para me servir. Não tenho nada a ver com a empresa”, afirmou o senador.
Ao detalhar a relação, Wagner ressaltou que nunca existiu uma parceria comercial entre ambos, embora reconheça que o empresário sempre o tratou como uma referência política e pessoal.
Investigação da Operação Compliance Zero
O senador foi alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, que investiga supostas irregularidades envolvendo o Banco Master e o sistema de crédito consignado Credcesta, implantado durante sua gestão como governador da Bahia.
As investigações apuram possíveis favorecimentos, movimentações financeiras e relações entre agentes públicos e empresários ligados ao sistema de crédito consignado no estado.
Críticas à atuação da Polícia Federal
Durante a entrevista, Jaques Wagner também revelou ter levado suas reclamações diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O parlamentar classificou como uma “patacoada” a atuação da Polícia Federal durante a operação que cumpriu mandados de busca relacionados à investigação.
A principal crítica do senador diz respeito à divulgação de imagens das moedas estrangeiras apreendidas durante a operação. Segundo Wagner, a exposição do material teria violado orientações de discrição e sigilo estabelecidas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça.
“Não quero proteção, quero correção. Seguramente abriram o envelope do Senado onde estavam minhas diárias, botaram lá na caminha e fotografaram. Eu disse para ele [Lula] que era muito ruim que a Polícia Federal transformasse uma investigação em espetacularização”, afirmou.
O senador também comparou a situação a práticas atribuídas à Operação Lava Jato, criticando o que chamou de tentativa de transformar investigações em eventos de repercussão pública.
Saída da liderança do governo
A entrevista também trouxe detalhes sobre a decisão de Jaques Wagner de deixar a liderança do governo no Senado. Segundo o parlamentar, a decisão foi tomada após conversa com Lula, realizada na quarta-feira (24).
De acordo com Wagner, o presidente ponderou sobre a dificuldade de conciliar a defesa jurídica com a intensa rotina política da liderança governista, levando-o a optar pelo afastamento do cargo.
“Ele disse que me conhecia há 48 anos, mas que construíram uma história que eu teria que desmontar e questionou se eu teria cabeça para fazer as duas coisas. Então, decidi me afastar”, relatou.
Para ocupar a liderança do governo no Senado, Lula escolheu a senadora Teresa Leitão, que assumirá a responsabilidade de conduzir a articulação política das pautas prioritárias do Executivo.
O caso envolvendo Jaques Wagner evidencia como investigações de grande repercussão podem ultrapassar o campo jurídico e produzir efeitos profundos no cenário político. Enquanto o senador busca demonstrar sua inocência e preservar sua trajetória pública, o avanço das investigações deverá continuar sendo acompanhado de perto, tanto pelos tribunais quanto pelos bastidores da política nacional, onde reputação, confiança e poder costumam caminhar lado a lado.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Agência Brasil













