Mais de 630 corpos e restos mortais foram retirados de escombros desde novembro de 2025; autoridades palestinas estimam que outras 8 mil pessoas ainda estejam soterradas.
Sob toneladas de concreto e destroços que transformaram bairros inteiros de Gaza em ruínas, famílias continuam encontrando respostas para um dos capítulos mais dolorosos da guerra. A descoberta de centenas de corpos entre os escombros de prédios destruídos por ataques israelenses reacendeu o alerta internacional sobre possíveis violações do direito humanitário e levantou novas preocupações sobre a ocorrência de crimes de guerra.
O alerta foi feito nesta terça-feira (15) pelo chefe de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Volker Türk. Segundo ele, restos mortais que aparentam pertencer a famílias inteiras estão sendo encontrados em áreas destruídas durante os ataques, sendo muitas das vítimas mulheres e crianças.
ONU alerta para possível violação do direito internacional
Em comunicado, Türk afirmou que a recuperação dos corpos confirma alguns dos temores enfrentados há meses por famílias que ainda aguardavam informações sobre parentes desaparecidos.
“É de partir o coração que os entes queridos daqueles que estão desaparecidos há tanto tempo só agora estejam vendo seus piores temores se confirmarem”, declarou.
Para o chefe de direitos humanos da ONU, as novas descobertas também retomam preocupações apresentadas em um relatório publicado pela organização em 2024. O documento apontou que ataques israelenses contra edifícios residenciais e outros locais civis durante as primeiras semanas da guerra poderiam ter violado normas do direito internacional humanitário.
O gabinete do primeiro-ministro de Israel e o Ministério das Relações Exteriores israelense não responderam imediatamente aos pedidos de comentário sobre as declarações.
Israel, por sua vez, rejeita de forma reiterada as acusações de que tenha atacado deliberadamente civis. O país afirma que suas operações seguem o direito internacional e que os ataques têm como alvo militantes do Hamas.
Mais de 630 corpos retirados dos escombros
A Defesa Civil Palestina informou que mais de 630 corpos e restos mortais foram recuperados debaixo de edifícios destruídos em diferentes áreas da Faixa de Gaza desde novembro de 2025.
O número, no entanto, pode aumentar significativamente. Autoridades palestinas estimam que mais de 8 mil pessoas ainda estejam soterradas sob os escombros.
Türk afirmou que os corpos encontrados até agora podem representar apenas uma pequena parcela do número total de vítimas que permanecem sob as ruínas. Segundo ele, grande parte da Faixa de Gaza foi devastada pelos bombardeios israelenses e por operações posteriores de demolição e retirada de estruturas.
O chefe de direitos humanos da ONU também acusou Israel de continuar destruindo algumas áreas onde suas forças permanecem posicionadas. Segundo Türk, escavadeiras estariam operando sem considerar a possibilidade de existência de corpos sob os destroços.
Guerra deixou milhões de toneladas de escombros
A dimensão da destruição também pode ser medida pela quantidade de resíduos acumulados em Gaza. Segundo as Nações Unidas, a ofensiva israelense iniciada após o ataque do Hamas em outubro de 2023 gerou aproximadamente 61 milhões de toneladas de escombros e detritos.
A estimativa da ONU é de que a remoção de todo esse material possa levar cerca de sete anos, diante da extensão dos danos e das dificuldades enfrentadas para localizar e retirar os corpos que permanecem soterrados.
Um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos interrompeu os combates em grande escala em outubro de 2025. A trégua, porém, não encerrou completamente a violência. Ataques israelenses continuaram sendo registrados, enquanto Israel e Hamas acusam um ao outro de violar o acordo.
Conflito já deixou dezenas de milhares de mortos
A guerra teve início depois do ataque liderado pelo Hamas contra Israel, em outubro de 2023. Segundo dados israelenses, aproximadamente 1.200 pessoas foram mortas no ataque, enquanto outras 251 foram feitas reféns.
Em resposta, Israel iniciou uma ampla campanha militar na Faixa de Gaza. De acordo com as autoridades de saúde palestinas, mais de 73 mil palestinos morreram durante a ofensiva.
Israel afirma que fez o possível para evitar mortes de civis e acusa o Hamas de utilizar a população de Gaza como escudo humano ao operar em áreas densamente povoadas. O grupo palestino nega a acusação.
Escombros guardam histórias que ainda não terminaram
Enquanto a disputa entre Israel e Hamas continua cercada por acusações, números e versões conflitantes, os escombros de Gaza carregam uma dimensão que nenhuma estatística consegue traduzir completamente. Para milhares de famílias, cada corpo encontrado significa o fim doloroso de uma espera que poderia durar meses ou anos.
A recuperação dos restos mortais também reacende uma pergunta que ultrapassa os campos político e militar: quantas vidas ainda permanecem escondidas sob aquilo que restou de suas próprias casas? Enquanto a comunidade internacional tenta dimensionar a destruição e apurar possíveis violações, Gaza continua revelando, entre toneladas de concreto, as marcas humanas de uma guerra cujo verdadeiro custo ainda está longe de ser completamente conhecido.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













