Bombardeio russo com centenas de drones e dezenas de mísseis transformou a capital ucraniana em cenário de destruição, levando milhares de pessoas a buscar abrigo durante a madrugada.
O som das explosões, o desespero de famílias correndo para abrigos e a imagem de prédios reduzidos a escombros voltaram a expor, de forma brutal, a dimensão humana da guerra na Ucrânia. Ao menos 30 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas após o maior ataque lançado pela Rússia contra Kiev desde o início da invasão, em fevereiro de 2022, transformando a capital ucraniana em palco de uma das noites mais devastadoras do conflito.
De acordo com a Força Aérea da Ucrânia, as forças russas lançaram 496 drones e 74 mísseis entre a noite de quarta-feira (2) e a madrugada de quinta-feira (3). O número de mortos subiu nesta sexta-feira (4), após equipes de resgate encontrarem mais três corpos sob os escombros de edifícios atingidos.
Capital viveu madrugada de terror
Segundo as autoridades locais, ao menos 91 pessoas ficaram feridas. Explosões foram ouvidas durante várias horas em diferentes regiões da capital, enquanto moradores buscavam desesperadamente refúgio em estações de metrô e abrigos subterrâneos.
O sistema metroviário de Kiev informou que cerca de 52 mil pessoas procuraram abrigo durante os ataques, incluindo aproximadamente 4.500 crianças, o maior número registrado nos últimos anos.
Entre os moradores que viveram momentos de pânico está Karina Taran, de 25 anos, que revelou ter recorrido a um abrigo pela primeira vez desde o início da guerra.
“Nunca tinha ido para um abrigo, mas hoje fiz isso pela primeira vez. Peguei meu filho e simplesmente corri para o abrigo. Só saí na manhã seguinte”, relatou.
Cenários de destruição e desespero
Jornalistas internacionais que acompanharam os trabalhos de resgate relataram cenas de devastação em diversos bairros da capital. Equipes de emergência trabalharam durante toda a madrugada para retirar vítimas presas sob os escombros.
A moradora Sabina Mambetova, de 32 anos, que havia deixado a cidade de Kramatorsk em busca de segurança em Kiev, viu sua nova residência praticamente desaparecer.
“Metade do prédio está destruída e o telhado já não existe”, afirmou. “Já houve muitos ataques antes, mas nunca assim. Foi um verdadeiro pesadelo.”
Diante da tragédia, o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, decretou esta sexta-feira como dia oficial de luto na capital ucraniana em homenagem às vítimas.
Zelensky promete resposta e pede mais apoio internacional
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, classificou o ataque como uma ação deliberada contra a população civil e prometeu uma resposta militar.
Segundo o líder ucraniano, a Rússia busca enfraquecer a soberania do país ao atingir alvos civis.
“A Rússia ataca exclusivamente alvos civis para obrigar a Ucrânia a renunciar ao seu Estado. Isso não acontecerá”, declarou.
Zelensky também pediu aos Estados Unidos autorização para ampliar a produção de sistemas de defesa antiaérea Patriot e solicitou aos aliados da Otan o fortalecimento do apoio militar durante a próxima cúpula da aliança, prevista para ocorrer na Turquia.
Rússia afirma que continuará aumentando a pressão
O Ministério da Defesa russo confirmou a realização de um “ataque intenso” contra Kiev, alegando que a ofensiva foi uma resposta aos ataques promovidos pela Ucrânia contra infraestrutura russa. Moscou afirmou ter direcionado os bombardeios contra instalações energéticas e empresas ligadas ao setor militar.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que a Rússia continuará ampliando a pressão sobre o governo ucraniano para atingir seus objetivos estratégicos.
Enquanto isso, os esforços internacionais para alcançar um cessar-fogo seguem sem avanços concretos. O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou o ataque e reiterou que ações contra civis e infraestrutura civil representam violações do direito internacional humanitário.
Mais de quatro anos após o início da guerra, cenas como as vividas em Kiev mostram que, por trás dos números e das estratégias militares, permanecem milhões de vidas marcadas pelo medo, pela perda e pela esperança cada vez mais urgente de que o silêncio das armas volte a prevalecer.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Tetiana DZHAFAROVA / AFP













