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Israel e Turquia elevam tensão sobre a Síria enquanto Irã ameaça usar armas mais destrutivas

Ancara condena ataques israelenses após bombardeio a uma base aérea síria e nega presença de tropas turcas; no mesmo momento, Guarda Revolucionária iraniana ameaça ampliar o poder de seu arsenal caso a guerra recomece.

O Oriente Médio volta a mergulhar em uma atmosfera de tensão que preocupa o mundo. Em meio a ameaças, ataques e uma diplomacia cada vez mais fragilizada, Israel e Turquia elevaram o tom nesta quinta-feira (20) após um bombardeio israelense contra uma base aérea na Síria. Ao mesmo tempo, o Irã fez uma nova ameaça de endurecimento militar caso o conflito volte a explodir, aumentando o temor de uma escalada ainda maior na região.

O episódio envolvendo Israel e Turquia ocorreu dois dias depois de Israel atacar a base aérea de Abu al-Duhur, no noroeste da Síria. Segundo o governo israelense, tropas turcas estavam prestes a se posicionar no local, o que representaria uma ameaça à segurança do país. Ancara, porém, negou que houvesse militares turcos na base e classificou os ataques israelenses como “imprudentes”.

Israel acusa Turquia de se envolver em “aventuras perigosas”

Israel afirmou que a Síria estava prestes a permitir a instalação de tropas turcas em Abu al-Duhur e que as autoridades israelenses já haviam alertado Damasco sobre os riscos que essa movimentação representaria.

A versão foi rejeitada pela Turquia e também pelo ministro das Relações Exteriores da Síria, Asaad al-Shaibani. Em entrevista ao site Axios, na quarta-feira (19), o chanceler sírio afirmou que havia deixado claro a Israel que não existia qualquer plano para estabelecer uma base militar turca no local.

Shaibani confirmou, no entanto, que oficiais militares turcos haviam visitado a base alguns dias antes do ataque. Segundo ele, a presença fazia parte da cooperação militar mantida entre os dois países, envolvendo treinamento e intercâmbio de conhecimentos.

O Ministério da Defesa da Turquia reforçou nesta quinta-feira que nenhuma delegação militar turca estava presente na base antes ou durante o bombardeio. Ancara também afirmou que continuará apoiando os esforços da Síria para desenvolver sua própria capacidade militar e sua infraestrutura de defesa.

Em uma manifestação contundente, o governo turco cobrou o fim dos ataques israelenses e defendeu o respeito ao direito internacional. Para Ancara, a interrupção dessas ações é necessária para preservar a paz e a estabilidade da Síria e de toda a região.

O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, respondeu diretamente ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Em uma publicação na rede social X, advertiu o líder turco contra o que classificou como “aventuras perigosas na Síria” e afirmou que Israel não aceitará que sua determinação de se defender seja colocada à prova.

A tensão ocorre em um território que se tornou estratégico para as duas potências. A Turquia, integrante da Otan, compartilha cerca de 900 quilômetros de fronteira com a Síria e foi um dos principais atores da guerra civil que durou 13 anos. O país apoiou grupos rebeldes contrários a Bashar al-Assad e realizou diversas operações militares em território sírio para combater grupos curdos que considera uma ameaça à sua segurança nacional.

Desde a queda de Assad, em 2024, a influência turca sobre a Síria aumentou. O novo governo de Ahmed al-Sharaa, que chegou ao poder após a ofensiva de grupos rebeldes, mantém relações próximas com Ancara. Para Israel, a preocupação que antes estava concentrada na influência do Irã sobre Damasco passou a incluir também o crescente papel da Turquia.

A própria movimentação militar já havia provocado contatos de alto nível. Fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que a possibilidade de envio de tropas turcas à Síria foi discutida em uma rara conversa telefônica entre Shaibani e Roman Gofman, chefe da agência de espionagem israelense Mossad, em 14 de agosto, poucos dias antes do ataque.

Irã ameaça ampliar poder de destruição em caso de nova guerra

Enquanto Israel e Turquia trocam acusações por causa da Síria, uma segunda frente de tensão ganha força. A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, conhecida pela sigla IRGC, advertiu nesta quinta-feira que poderá utilizar armas ainda mais destrutivas caso um novo conflito seja iniciado.

A declaração ocorreu depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a suspensão das negociações com Teerã e afirmou que pretende adotar contra o país a medida econômica mais devastadora já aplicada por Washington.

Um porta-voz do IRGC declarou, segundo a agência semioficial iraniana Tasnim, que, se a guerra for retomada, o arsenal empregado pelo Irã será diferente daquele utilizado em confrontos anteriores. A autoridade também afirmou que o poder destrutivo das ogivas utilizadas nos mísseis da Guarda Revolucionária é muito superior ao registrado em guerras passadas.

Trump, por sua vez, afirmou na quarta-feira (19) que considera a situação com o Irã “muito boa”, apesar da suspensão das negociações. O presidente americano disse que os contatos poderão ser retomados em algum momento.

Ao mesmo tempo, anunciou que pretende adotar medidas econômicas contra qualquer país que ofereça apoio a Teerã. Em uma publicação na Truth Social, Trump afirmou que nações que permitirem que instituições financeiras, empresas, aeroportos ou órgãos governamentais forneçam qualquer tipo de ajuda vital ao Irã poderão enfrentar consequências econômicas severas.

O presidente americano não detalhou quais medidas pretende adotar nem indicou quais países poderiam ser atingidos. Trump chamou a iniciativa de um “dia D econômico” e pediu que os aliados dos Estados Unidos participem do esforço para isolar o que classificou como ameaça iraniana.

Conflito já deixou milhares de mortos e ameaça o comércio mundial

A escalada acontece depois de uma guerra que provocou milhares de mortes, atingiu países do Golfo e trouxe impactos para a economia mundial. Um dos principais pontos de preocupação continua sendo o Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde transitava cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo antes do início do conflito.

Estados Unidos e Irã anunciaram acordos de cessar-fogo em abril e junho, com a intenção de restabelecer a livre circulação de navios pela região e abrir caminho para o fim das hostilidades. As duas tentativas, porém, fracassaram rapidamente, mesmo após uma retirada significativa de Israel dos combates.

O Irã também permanece submetido a duras sanções econômicas há quase cinco décadas, desde a Revolução Islâmica de 1979. Apesar da pressão, Trump ainda não conseguiu alcançar todos os objetivos estabelecidos no início da guerra, entre eles desmantelar o programa nuclear iraniano, limitar a capacidade de Teerã atacar seus rivais regionais e criar condições para uma mudança de governo no país.

As novas ameaças também carregam um elemento de incerteza. Declarações e anúncios feitos por Trump nas redes sociais nem sempre são executados exatamente como anunciados, e o presidente ainda não especificou quais medidas econômicas serão efetivamente adotadas nem quais países poderão sofrer consequências por manter relações com o Irã.

O que fica, neste momento, é um Oriente Médio novamente diante de um cenário delicado, em que um ataque pode provocar uma reação, uma ameaça pode gerar outra e uma disputa localizada pode rapidamente envolver diferentes países. Entre a Síria, Israel, Turquia e Irã, as palavras estão cada vez mais duras e os riscos, cada vez maiores. Para uma região marcada por décadas de guerras e perdas humanas, o maior temor é que a escalada deixe de ser apenas uma troca de ameaças e volte a transformar vidas em números, cidades em ruínas e a esperança de paz em uma espera ainda mais distante.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Getty Images

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